A historiografia crioula e os próceres da ciência política continuam a lidar muito mal com o 25 de Abril.
Esta é uma “self-evident truth”.
Quando a corporativista ditadura de Salazar caiu, em 1974, Cabo Verde viveu um autêntico clima de festa, à espera, finalmente!, da santa LIBERDADE.
Nada disso aconteceu. Foi sol de pouca dura.
O PAIGC, com o apoio de sectores estalinistas do MFA, abafou, desde muito cedo, esse sonho precioso, instalando, como já salientei no meu livro de 2016 (ver https://www.chiadoeditora.com/livraria/sociedade-civil), uma ditadura totalitária nestas ilhas, sob a chancela da sua célebre “legitimidade histórica”.
A MENTIRA permanece contudo até hoje e é criminosamente ensinada nas escolas deste país, incluindo as universidades.
Ora, a legitimidade histórico-revolucionária é uma charlatanice. Não existe.
Como escrevera Vasco Pulido Valente, trata-se apenas de um “poder de facto”, fachada da mais triste arbitrariedade e da, dir-se-ia, nietzschiana “vontade de poder”, exercida por uma vanguarda pseudoiluminada com o apoio tácito ou expresso da “rua”.
Cabo Verde, a partir de 1992, reentrando tranquilamente no magnífico Processo Civilizatório, soube conciliar, em medida não negligenciável, a Liberdade com a Autoridade, o Estado de Direito com o Governo pelo Consentimento, a Justiça com a Democracia.
Mas a democracia liberal, pluralista e representativa não consegue sobreviver, a longo prazo, sem um pilar essencial, para além, note-se, das considerações estritamente economicistas: a CULTURA DA LIBERDADE.
É impossível construir uma democracia civilizada, de traça ocidental, com os laivos da velha cultura totalitária.
Há que superar a corrosiva política do cinismo.
Isso equivale, na verdade, a uma lamentável desconstrução, com um forte impacto na erosão das instituições públicas.