Estava a ouvir uma das sessões da Assembleia Nacional, quando oiço uma deputada a dizer e várias vezes que Amílcar Cabral (AC) foi o criador da nossa identidade.
Ninguém nem rugiu nem mugiu relativamente a essa grave afirmação, pelo menos não tive a oportunidade de ouvir.
É evidente que essa deputada disse isso na melhor das intenções sem saber (ou será que sabe?) o que significa a identidade de um povo.
Será que uma só pessoa, por mais especial que seja, poderia alguma vez dar a identidade a um povo? Porque é que se quer colocar AC numa situação dessas quando ele mesmo disse: “ Sou um simples africano…”.
Alguma vez AC teria a pretensão de dar a identidade ao seu povo, quando sabemos que a identidade é fruto de luta, de vitórias e de derrotas desse povo durante séculos? E que ela não é estática, mas que se vai adaptando ás mudanças desse mundo cada vez mais rápidas e globais? Não será essa mesma identidade que de a AC os instrumentos para organizar e desenvolver a luta contra o fascismo e a ditadura portuguesa?
Alguma vez AC teria a pretensão de dar algo ao seu povo, algo esse, construído pelo próprio povo durante séculos e séculos debaixo de sacrifícios sem fim?
Quem conhece AC ou quem leu os escritos de AC certamente não pode de forma alguma desrespeitar AC dessa forma-se em plena Assembleia Nacional. Ainda por cima uma deputada do partido que se fiz herdeiro de AC e de tudo o que esse homem fez e escreveu?
Que AC lutou e foi um dos principais responsáveis pela Independência de Cabo Verde, não tenho a mínima dúvida.
Que a luta de AC contribuiu para o processo da Independência das ex-colônias, portuguesas também não me deixa dúvidas nenhumas.
Que AC nessa luta contribui para o fim da ditadura salazarista também não.
Que AC tenha sido um dos políticos mais importantes e brilhantes do século XX a nível africano e mesmo mundial também não.
Mas não o transformemos, um homem simples lutador e respeitado no mundo inteiro, numa personagem de ficção, pois só em filmes de ficção é que, um homem é capaz de criar uma identidade e dar essa identidade a um povo que ele pertence de presente.
Sejamos sérios e não brinquemos com a história do nosso país. Respeitemos o pensamento de AC na justa medida que deu para a Independência do nosso país. Mais, respeitar AC é compreender esse herói no tempo e no espaço em que viveu. É estudar as suas obras que certamente darão pistas para a compreensão de todo o processo da Independência e provavelmente pistas para se descobrir os caminhos do seu assassinato em 1973.
Não vale a pena tentar utilizar AC, desvirtuando o homem que ele foi só para ganhar não sei bem o quê, principalmente num espaço de maior dignidade do povo cabo-verdiano e que acolhe os eleitos que deviam respeitar a sua própria identidade – a Assembleia Nacional.



Apesar de tudo, com aventura e sofrimento, Cabo Verde foi descoberto pelos portugueses, povoado por acção dos portugueses por tambem africanos e, deste modo, se fez um povo novo e um país maravilhoso. Amilcar Cabral cometeu um erro: – Quiz fazer um país com duas realidades diferentes, Cabo Verde e Guiné, com os caboverdianos a mandarem nos guinéus. Mataram-no por isso.
Leiam a portaria publicada no BO e assinada pelo Ministro da Tutela dis CTT, em nome do Governo. O MPD diz que Amílcar Cabral é o pai da nacionalidade cabo verdiana.
Acabou se tudo.
Está na hora de desfazer mitos e mentiras. Cabral não é pai da nossa identidade nem é fundador da nacao cabo-verdiana. As duas coisas são anteriores a Cabral. Quer dizer que 12 de Setembro – Cabral pai da nacionalidade, que é uma aberracão – precisa de ser debatido no Parlamento e na sociedade, sem complexos. O PAIGC/CV inpingiu-nos essa treta e nós todos engolimos algo que é negação de toda a nossa história.
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