1974 – 1975: O Silêncio que ainda grita, a exclusão da UPICV, da UDC e a repressão no Fogo

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A história não pode ser reescrita ao gosto do presente. Há verdades incómodas que persistem, e entre elas está o modo como o PAIGC se impôs em Cabo Verde, com apoio militar, repressão e silenciamento de vozes legítimas.

A caminho de Lisboa, levo comigo um livro que deveria ser leitura obrigatória para todos os que se atrevem a falar de história com honestidade: Cabo Verde na Encruzilhada da Independência, de José Tomás W. Veiga. A leitura das páginas 101 e seguintes não deixa margem para dúvidas — o processo de implantação do PAIGC em Cabo Verde foi tudo menos plural, livre e consensual.

Contrariando a ideia romantizada de uma “transição pacífica e unida”, o autor documenta com clareza como o PAIGC, até então praticamente ausente do terreno cabo-verdiano, se impôs rapidamente após o 25 de Abril de 1974, com o apoio direto das Forças Armadas portuguesas e com o silenciamento de qualquer oposição.

Partidos como a UPICV e a UDC existiam, tinham propostas diferentes, legítimas e com apoio social. Mas foram tratados como inimigos, impedidos de se organizar e os seus membros perseguidos. Pior: cidadãos cabo-verdianos que se opunham à união com a Guiné-Bissau — sobretudo na ilha do Fogo — foram presos, calados e humilhados. Rufino José da Silva, Caetano Silva e muitos outros estão entre os nomes silenciados pela narrativa oficial, mas lembrados por quem recusa esquecer.

José Tomás Veiga é claro: não houve espaço para eleições pluripartidárias, nem para confrontação democrática de ideias. O PAIGC proclamou-se “único representante legítimo da Nação”, invocando a “legitimidade histórica” da luta armada e excluiu à força tudo o que contrariava a sua linha.

A pluralidade foi sufocada à nascença. A oposição foi anulada antes mesmo de poder respirar. E tudo isto aconteceu com a bênção de forças externas e o medo interno de contrariar a doutrina dominante.

Ler estas páginas é um exercício de memória — e de justiça. Porque hoje, enquanto alguns insistem em branquear o passado ou insinuar que vivemos tempos piores, é essencial lembrar que a democracia não nasceu em 1975 — teve de ser conquistada contra a vontade de muitos.

Os foguenses e demais cabo-verdianos que foram presos em 1974 e 1975 não foram criminosos — foram dissidentes políticos. E isso, num Estado que se queria livre, deveria ter sido motivo de proteção, não de punição.

É tempo de dizer basta à amnésia seletiva. A História não pode ser moldada para servir conveniências partidárias. Há factos, há nomes, há vítimas. E há livros como o de José Tomás Veiga que, com rigor e coragem, repõem a verdade.

Democracia sempre. Partido único, nunca mais.