1]Comemoraram-se os 50 anos de Independência de Cabo Verde. Entre alvíssaras e picardias, de modo geral, o cabo-verdiano comportou-se como o cabo-verdiano que é: um povo com mil virtudes e cem defeitos. E, entre os nossos defeitos, estão a memória curta e a ingratidão. Isso se explica facilmente pela razão maior que moldou a Nação cabo-verdiana: a fome.
[2]O povo cabo-verdiano — do alto ao baixo clero — é produto da fome. O nosso comportamento e atitude, tanto individual quanto coletiva, são frutos de mais de quatrocentos anos de fome cíclica. Da primeira grande fome em 1580 à última, entre 1946 e 1948, atravessamos um longo percurso de sofrimento. Nesta última, só a ilha de Santiago perdeu 65% da sua população, São Nicolau perdeu 28% e Fogo, 31%. Foi a fome que nos moldou e construiu enquanto indivíduos e enquanto coletividade. Durante quatro séculos, toda geração cabo-verdiana viveu pelo menos uma grande fome — e estas foram tão violentas que, por vezes, foi necessário “repovoar” algumas ilhas, como aconteceu na fome de 1719-1723, quando o Sal, Boavista e Fogo tiveram que ser repovoadas.
[3]Esse recorte histórico permite traçar o nível de trauma que este povo carregou para ultrapassar uma série de adversidades: a exploração humana, a pobreza extrema, a fome, as hierarquias sociais, os signos e os significados. Esses traumas ainda estão presentes. Principalmente, num comportamento que gosto de chamar de “a fila do sapo”. Explico: o cabo-verdiano pode ser paciente em muitas situações, mas tem enorme dificuldade em manter a paciência numa fila — seja do banco, do trânsito, ou de qualquer outro tipo. No trânsito, por exemplo, é comum vermos condutores com dificuldade em dar uma simples prioridade a quem dela precisa. Por quê? Porque vivemos a fome. Houve momentos em que a diferença entre estar vivo amanhã e morrer hoje dependia de um prato de sopa. Os famintos eram muitos e a sorte, pouca — centenas morriam diariamente. Nesse cenário, dar prioridade era uma questão de vida ou morte.
[4]Da mesma forma, essa vivência de fomes constantes nos obrigou a desenvolver uma memória curta, como estratégia de sobrevivência face à tragédia e à violência de viver aqui. Só com memória curta seria possível ao povo cabo-verdiano sobreviver a Cabo Verde. Por que era preciso esquecer a dor da Fome, do Sofrimento e da Pobreza.
[5]Acredito que já é tempo de entendermos de onde viemos e quem somos, para podermos curar as nossas feridas e melhorar os nossos defeitos. E por quê? Porque celebramos 50 anos de Independência, no entanto, em meio a todas essas comemorações, ninguém pareceu lembrar que a nossa independência é fruto de um sacrifício enorme do povo guineense. A Guerra de Independência custou a vida de aproximadamente 10 mil guineenses — entre soldados e civis.
[6]Esse facto não deveria ser negligenciado, pois o peso da Luta Armada foi quase totalmente suportado pelo povo da Guiné-Bissau. Nestes dias de euforia, nem mesmo a elite do PAICV — que se reivindica africana e independentista — teve a ombridade de reconhecer esse facto, o que reforça a ideia de que a unidade dos povos foi, talvez, uma utopia vivida apenas por Amílcar Cabral. Isso acaba por desmascarar a pretensão de que o PAICV seja verdadeiramente africano. Da mesma forma, a elite do MpD ainda não conseguiu curar a ferida da sua exclusão — e do pouco protagonismo — no primeiro momento da criação do Estado cabo-verdiano.
[7]Na verdade, o que se tem visto ao longo dos anos é uma disputa de protagonismo entre elites, uma corrida por ver quem será reconhecido como “o melhor filho da terra”, sobretudo diante do relativo sucesso que tem sido Cabo Verde. Nessa luta de egos, o país e a Nação ainda não deram à Guiné-Bissau o que lhe é devido. Precisamos fazê-lo, não apenas como um ato de gratidão, mas sobretudo como um gesto de elevação e de cura de dois dos nossos maiores defeitos: a ingratidão e a memória curta.



Qual é a idade e do Senhor Rony Moreira? Cabo Verde não conhece fome desde 1949. Que países no planeta não tiveram fomes cíclicas? Porque razão teríamos de agradecer ao +povo da Guiné <Bissau? Por ter lutado para obter a independência do seu país? Houve algum pedido para que os guineenses lutassem para a independência de Cabo Verde? Os guineenses sempre rejeitaram esta luta e a prova é golpe de estado de 1980.
“mil virtudes e cem defeitos”! Cem de 100 ou Sem, #MAC114?
Onde se licenciou sr Roni?
Perdeste uma oportunidade de ouro para estares calado. Mas vá, vamos lá ver uma coisa:
Os meus pais não chamaram o Amílcar Cabral nem os seus camaradas para irem para a Guiné, meterem-se com os guineenses e lutarem por uma independência que ninguém lhes encomendou. Só faltava agora quererem meter São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique ao barulho também…
Afinal, o nome era Partido Africano para a Independência das Colónias Portuguesas, não era? Então, seguindo essa lógica, todos os outros deviam ajoelhar e agradecer ao povo guineense. Sem ele, aparentemente, nem identidade teriam.
E olha, por mais que custe a engolir, tenho sérias dúvidas se Cabo Verde hoje não estaria melhor como uma região autónoma de Portugal do que nesta triste figura de país independente. Sejamos honestos: o ganho mais evidente que a tal independência nos trouxe foi podermos imprimir o nosso próprio passaporte e CNI. Grande vitória, hein?
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