50 Anos de Independência: o legado de Pedro Pires e o desafio da democracia em Cabo Verde

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Ao celebrar meio século de soberania, é fundamental reconhecer as escolhas do passado para fortalecer o compromisso com a liberdade e a consolidação do Estado democrático.

Neste 5 de julho de 2025, Cabo Verde comemora meio século de independência, um marco histórico celebrado com solenidade em todo o país e na diáspora. Desde a proclamação da independência em 1975, no Estádio da Várzea, na cidade da Praia, o país tem trilhado um percurso de avanços notáveis em áreas como educação, saúde e democracia, tornando-se referência no continente africano.

Neste contexto de celebração e reflexão, é oportuno revisitar a trajetória do Presidente Pedro Pires, figura central na luta pela independência e na consolidação do Estado cabo-verdiano. Pires declarou abertura política em 1990 e foi eleito Presidente da República numa disputa acirrada, decidida no tribunal — episódio que simboliza a maturidade democrática que hoje caracteriza Cabo Verde.

A sua contribuição é inegável e amplamente reconhecida. E para mim, pessoalmente, Pedro Pires já está reabilitado aos olhos da História e da Nação. No entanto, permanece um ponto delicado que merece ser debatido com franqueza: a sua persistência em defender o orgulho pelo partido único, mesmo reconhecendo que, ao longo destes 50 anos, houve acertos e equívocos.

Essa posição, compreensível do ponto de vista pessoal e biográfico, pode ter implicações políticas preocupantes. Bastaria que admitisse, com a autoridade que tem, que o partido único foi uma opção política — entre outras possíveis — e não uma inevitabilidade histórica. Só isso já seria suficiente para não deixar margem à atual direção do PAICV para alimentar, sem contraditório, um discurso anacrónico de glorificação do partido único, das milícias populares e dos tribunais de zona, com base num alegado “vazio” que a sua extinção teria deixado.

Essa narrativa não corresponde à realidade: o verdadeiro vazio não foi provocado pela democracia, mas sim pela dificuldade de certas elites em aceitá-la de forma plena e consequente.

Se o Presidente Pires assumisse publicamente que o partido único foi uma escolha política que poderia ter sido diferente, contribuiria, mais do que ninguém, para consolidar a irreversibilidade do regime democrático em Cabo Verde. Seu legado não se limitaria ao de artífice da independência — passaria a ser também o maior construtor da democracia que hoje temos, reconhecido sem hesitações ou ambiguidade.

O partido único pertence ao passado e não deve ser motivo de orgulho, mas sim de aprendizado. Esse reconhecimento consolidaria o estatuto de Pires como estadista que soube posicionar-se, com sinceridade e coerência, do lado certo da história: o lado da liberdade.

Foi por acreditar na importância dessa mensagem que, nas últimas semanas, me envolvi ativamente no debate público. Reconheço que tenho escrito com frequência — talvez até em demasia — nas redes sociais, movido pela inquietação cívica perante o rumo do discurso político atual. Em especial, após ouvir do atual líder do PAICV — e candidato a Primeiro-Ministro nas eleições de 2026 — declarações de exaltação ao partido único, às milícias e aos tribunais de zona, com um suposto “entendimento sólido e de aço”, e com a alegação de que a sua extinção deixou um “vazio” no país.

Mais surpreendente, porém, tem sido o silêncio de muitas vozes democráticas respeitadas em Cabo Verde, que sempre se bateram pela liberdade e pela Constituição, mas que agora parecem hesitar em reagir a declarações tão graves vindas de quem aspira liderar o país. Esse tipo de discurso não pode passar em silêncio. E talvez esta espécie de carta ao Presidente Pedro Pires — a quem reconheço o valor histórico e simbólico — represente, para mim, uma pausa no debate partidário nacional. Não porque faltem argumentos, mas porque acredito que cumpri, até aqui, o meu dever de alertar, defender e reafirmar a liberdade.

É tempo agora de dar espaço à reflexão e de confiar que outros, também com responsabilidade cívica, saibam continuar a construção coletiva de um Cabo Verde democrático, plural e justo. A democracia não é tarefa de um só — é missão de todos.

1 COMENTÁRIO

  1. Não, não posso estar de acordo consigo. Sem querer, você se meteu num caminho perigoso que leva ao branqueamento de Pedro Pires e do regime de partido únicio. Nao basta que ele diga que o partido único foi uma das opções possíveis, mas que foi uma opção errada e que teve práticas expremamente condenáveis. Não basta que ele assine uma declaração a dizer que tinha outras opções, é necessário que peça desculpas aos cabo-verdianos pelos crimes de tortura e de perseguição praticados pelo regime que ele liderou.

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