60 dias de governação: o que mudou, efetivamente?

0

Sessenta dias são suficientes para fazer perguntas. Não são suficientes para exigir milagres. Mas são mais do que suficientes para começar a confrontar promessas com decisões e discursos com realidade.

Analisando de forma objetiva os primeiros 60 dias do governo de Francisco Carvalho em Cabo Verde, o balanço preliminar aponta para um descompasso significativo entre o discurso de campanha (mudança, transparência, rigor) e as primeiras decisões concretas.

Do lado das mudanças efetivas e verificáveis, temos:

· Aumento generalizado do custo de vida: Eletricidade, combustíveis e transportes públicos (autocarros e Hiace) subiram. Isto é factual e impacta diretamente o bolso do cidadão.

· Reestruturação administrativa intensa: A substituição em cadeia de quadros e dirigentes da Administração Pública é uma realidade, mas os critérios objetivos (mérito, concurso) não estão claros para a opinião pública, gerando ruído sobre eventual “spoils system” (sistema de despojos).

Do lado das promessas não cumpridas ou com execução duvidosa, destacam-se:

· Concurso público como porta de entrada: a promessa de rigor contrasta com a falta de transparência nas novas nomeações.

· Redução de viagens e “gorduras”: Se os dados orçamentais para deslocações e novas consultorias/estudos aumentaram, a promessa de austeridade fica comprometida.

· Aluguer de viaturas: A crítica aos “jipões” oficiais parece estar a ser substituída por um novo modelo (aluguer privado) cujos custos e beneficiários não são públicos, levantando suspeitas de continuísmo com “nova roupagem”.

O grande “elefante na sala” é a coerência: o governo criticou no passado os procedimentos que agora adota. Isso gera a perceção de que mudou apenas quem governa, não a forma de governar.

Recomendação prática para os cidadãos e para a comunicação social:

1. Exigir dados brutos: Não bastam declarações. É preciso solicitar, via Lei de Acesso à Informação, os contratos de aluguer de viaturas, as bases das novas nomeações e os termos de referência das novas auditorias/estudos.

2. Cronometrar as promessas: Faltam 40 dias para os 100 dias. Este é o prazo-limite para o governo apresentar um relatório preliminar de execução, não um “show de propaganda”.

3. Separar o que é conjuntura do que é estrutura: O aumento dos combustíveis pode ter componente externa, mas a gestão das nomeações e dos contratos é 100% escolha política interna.

Conclusão: Aos 60 dias, a resposta à pergunta “O que mudou?” é: aumentaram os custos para o cidadão e a percepção de que a “nova governação” ainda não se traduziu em transparência ou rigor efetivo. A conta, por agora, está a ser paga pelas famílias cabo-verdianas, enquanto as promessas aguardam factos. Os próximos 40 dias serão decisivos para provar se há ou não uma efetiva rutura com o passado.

COMENTE ESTA NOTÍCIA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui