Nos últimos anos, as taxas de abstenção eleitoral têm aumentado de forma considerável em diversas democracias ao redor do mundo, refletindo uma tendência preocupante de desinteresse ou mesmo de desconfiança em relação ao processo político. Países como os Estados Unidos, França e até o Brasil, que historicamente mobilizavam grandes segmentos da sua população, têm registado níveis crescentes de eleitores ausentes das urnas. Nas eleições presidenciais de 2022 no Brasil, onde o voto é obrigatório, por exemplo, mais de 20% dos eleitores aptos a votar não compareceram, enquanto na França, a abstenção atingiu quase 30% na segunda volta das eleições legislativas de 2022, Portugal ultrapassou a barreira dos 55%. Essa conjuntura internacional aponta para uma crise generalizada de participação política, que merece uma análise profunda sobre suas causas e implicações.
Os analistas políticos apontam como principais razões para o aumento da abstenção no mundo, a desilusão com os partidos políticos e com a eficácia das instituições democráticas. Muitos cidadãos sentem que os seus votos não geram mudanças reais nas suas condições de vida, alimentando um ciclo de apatia. Além disso, questões como a desigualdade económica, a desinformação, a polarização política e a ausência de opções políticas que representem efectivamente os anseios da população contribuem para esse afastamento. A modernização tecnológica e o surgimento das redes sociais , apesar de facilitar a vida em vários sectores, também gerou uma desconexão entre os líderes políticos e as massas, com campanhas muitas vezes reduzidas a estratégias digitais superficiais que não engajam verdadeiramente os eleitores.
Essa tendência global também se reflecte em Cabo Verde, onde a taxa de abstenção tem vindo a aumentar consistentemente a cada eleição. Esse fenómeno é preocupante, pois ameaça o funcionamento da democracia cabo-verdiana, que historicamente se destacou pela estabilidade e pela participação cívica. O afastamento dos eleitores sugere um descontentamento crescente, não apenas com os partidos políticos, mas também com o desempenho das instituições democráticas e com a capacidade do sistema político de responder às demandas da população.
A Responsabilidade dos Partidos Políticos
A democracia, por definição, exige engajamento e participação activa, mas essa responsabilidade não pode recair apenas sobre os eleitores. Os partidos políticos têm um papel central no fortalecimento da democracia e na criação de condições que incentivem o envolvimento cívico. Em Cabo Verde, tanto os partidos da situação quanto da oposição são corresponsáveis pela crescente apatia eleitoral. Falta, muitas vezes, uma abordagem colaborativa em questões de interesse nacional, como o combate à pobreza, a melhoria da educação, a criação de oportunidades económicas e também a protecção das instituições.
Os partidos devem reconhecer que o aprimoramento da democracia passa pela promoção de um diálogo mais aberto, pela valorização do papel das instituições democráticas e pela transparência nas suas acções. Além disso, é imperativo criar uma plataforma de entendimento que permita a resolução conjunta de questões transversais que impactam todos os cidadãos, independentemente das filiações políticas.
A Protecção das Instituições Democráticas
É importante que as instituições democráticas sejam protegidas contra os ataques de discursos populistas e demagógicos. A confiança nessas instituições é um dos pilares de qualquer democracia funcional. Para tanto, os partidos devem trabalhar para reconquistar a confiança dos eleitores, promovendo políticas públicas que tragam resultados concretos e que reflitam os anseios populares. Essa tarefa exige compromisso e responsabilidade de todos os sujeitos políticos.
Reverter o aumento da abstenção eleitoral em Cabo Verde exige esforço colectivo. Os partidos políticos precisam repensar suas estratégias de comunicação com o eleitorado , apostando em campanhas que priorizem o diálogo directo com os cidadãos. Também é necessário promover a educação cívica, especialmente entre os jovens, para reforçar o valor do voto como instrumento de transformação.
Mais do que nunca, a classe política deve mostrar disposição para superar divergências e construir consensos que fortaleçam a democracia. A criação de uma plataforma de entendimento para tratar de questões cruciais, como a reforma eleitoral, a redução das desigualdades e o combate à corrupção, pode ser um primeiro passo para reverter o desinteresse da população e garantir que a democracia cabo-verdiana continue a ser exemplo na região.
Assim, é essencial reconhecer que a responsabilidade pela abstenção não pertence exclusivamente a uma única entidade ou grupo, mas a todos os actores políticos. Situação e oposição devem assumir a sua parcela de responsabilidade e agir com urgência para resgatar o envolvimento dos cidadãos na vida política. Afinal, uma democracia só é forte quando conta com a participação activa de todos os seus membros.
Apesar dos desafios e das necessárias melhorias, a democracia continua a ser o melhor regime político. Todos somos chamados a dar a nossa contribuição na edificação do melhor Estado de Direito Democrático possível.


