Muito se tem falado dos resultados das eleições legislativas de 2026 em Cabo Verde, mas pouco se discute sobre um dado que merece profunda reflexão: a elevada taxa de abstenção, que atingiu os 51,2%, ultrapassando inclusive a percentagem de votos que garantiu a vitória ao PAICV, com cerca de 47%.
Este cenário levanta questões importantes sobre o estado da participação cívica no país. Onde está a falha? Estarão os cidadãos, sobretudo os jovens, a perder a confiança na política e nas instituições democráticas? Ou existirão outros fatores estruturais e sociais que contribuem para o aumento da abstenção eleitoral?
Antes do período eleitoral, tive a oportunidade de contactar com vários jovens e constatei uma realidade preocupante: a falta de informação política, o desinteresse pelo processo democrático e, em muitos casos, a ausência de recenseamento eleitoral. Apesar do esforço desenvolvido pelas equipas da Comissão de Recenseamento Eleitoral (CRE), presentes em todas as ilhas na mobilização e sensibilização da população para o recenseamento e para o exercício do direito de voto, muitos jovens mostraram-se afastados deste dever cívico.
É preocupante verificar que uma parte significativa da juventude, que representa o futuro do país e participa diretamente na construção do rumo nacional, continua distante da participação política ativa.
Outro fator relevante está relacionado com os movimentos migratórios internos. Quando se fala de emigração, normalmente pensa-se na saída de cidadãos para o exterior. No entanto, em Cabo Verde existe também uma forte mobilidade entre ilhas, motivada pela procura de melhores condições de vida, emprego e oportunidades. Muitos cidadãos permanecem recenseados nas suas ilhas de origem, mas residem noutras ilhas, enfrentando dificuldades logísticas e financeiras para regressarem e exercerem o seu direito de voto. Embora exista a possibilidade de transferência da mesa de voto, muitos desconhecem os procedimentos ou não conseguem fazê-lo dentro dos prazos estabelecidos.
Numa era marcada pela digitalização e pela inovação tecnológica, torna-se legítimo questionar por que razão ainda não se avança para mecanismos mais modernos e acessíveis de votação. A implementação futura de plataformas digitais seguras poderia facilitar significativamente a participação eleitoral, sobretudo para cidadãos deslocados, emigrantes e jovens mais conectados às ferramentas tecnológicas.
Importa ainda sublinhar que a promoção da participação eleitoral não deve ser encarada como responsabilidade exclusiva da CRE ou dos partidos políticos. Trata-se de uma missão coletiva, que exige o envolvimento das instituições, das escolas, das famílias, das organizações da sociedade civil e de cada cidadão. Incentivar a participação democrática é fortalecer a cidadania e consolidar a democracia.
Falar de abstenção não significa, necessariamente, concluir que o povo deixou totalmente de acreditar na política. A realidade é mais complexa e envolve múltiplos fatores sociais, económicos, culturais e institucionais. Contudo, os números destas eleições devem servir como um sério alerta para todos os atores políticos e sociais: é urgente aproximar os cidadãos da política e reconstruir a confiança na participação democrática.



Este numero e muito elevado porque existe compras de votos em Caboverde.Caso contrario , o numero talvez seria menos. Deve-se procurar a solucao para este grave problema.
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