A agricultura na política

A política, tal como a vida, deveria ser entendida a luz de uma velha sabedoria da agricultura: ninguém colhe aquilo que não soube semear.

Na agricultura, semeia-se, cultiva-se, aduba-se, poda-se, limpa-se a erva daninha, espera-se pelo tempo certo e, só depois colhe-se . Na política deveria acontecer exatamente o mesmo.

Sempre acreditei que a política não precisa de donos, mas de doadores, algo quase, como um doador de sangue.

Existem líderes, com e sem capacidade de liderança: se dividem em líderes passageiros e líderes de áurea vitalícia, aqueles, que se perpetuam no “ad memoriam” das pessoas, quase que de forma vitalícia.

Existem também pessoas que coordenam sem coordenadas e que , por uma dessas ironias da vida, precisam eles próprios de serem coordenados.

Liderar não é simplesmente ocupar um lugar. É saber para onde se vai, com quem se vai e, sobretudo, quem deve caminhar ao nosso lado.

Um líder que não sabe escolher as sementes pode até preparar uma grande lavoura, mas não deve esperar colher “morangos” se passou a vida a semear “obroi”.

É tão simples assim.

A política exige estoicismo. Exige paciência, constância, discernimento e, sobretudo , capacidade de saber ser poder .

Existem ramos que precisam ser cortados para que a árvore cresça. Há ervas que precisam ser arrancadas para que a plantação não seja sufocada. E há sementes que, por mais bonitas que parecem , simplesmente não servem para o terreno onde se pretende plantar.

Escolher é também liderar. Um líder politico precisa saber conectar-se com o povo, com a militância , com a sociedade e só assim saberá exercer o poder.

Precisa escutar antes de falar e compreender antes de prometer. Porque “slogans vazios” podem ganhar aplausos, mas não alimentam uma sociedade.

E uma sociedade não vive de prosápia, vive de resultados.

Também na política há veredas que parecem mais fáceis, mas que conduzem a terrenos pantanosos. Nem toda a companhia é sufragável e, quem decide caminhar demasiadamente perto de pessoas erradas corre sempre o risco de chamuscar.

Trata-se de saber escolher companhias, saber distinguir competências e saber preservar a própria identidade de líder que necessita ser carismático para os demais seguidores.

Um líder não pode transformar a sua liderança numa feira de vaidades, onde todos querem aparecer e poucos querem servir.

Precisa saber peneirar.

Porque quem não sabe peneirar acaba, mais cedo ou mais tarde engolido pelos próprios resíduos da peneira.

A verdadeira liderança não se mede pelo número de pessoas que dizem “ SIM “ .

Mede-se também pela capacidade de ouvir um “NÃO” , de reconhecer um erro, de corrigir uma rota e de afastar daquilo que compromete o próprio futuro.

Há momentos na vida politica em que a maior demonstração de autoridade não é nomear.

É saber não nomear.

Não é aproximar.

É saber quem deve permanecer a distancia.

Não é acumular gente a volta.

É saber escolher as pessoas certas para a caminhada.

Uma convenção, um congresso ou qualquer momento de renovação de uma força política não deveria ser apenas uma oportunidade de mudança de nomes, caras, cargos ou estatutos.

Deveria ser , sobretudo, uma oportunidade para perguntar: que sementes queremos plantar?

Que lideranças queremos cultivar?

Que árvores queremos deixar crescer?

E, sobretudo, que frutos queremos oferecer a sociedade?

Porque os partidos passam.

Os líderes passam.

Os cargos passam.

As maiorias passam.

Mas o país fica.

E um país não pode ser governado a base da improvisação, slogans ou sonhos que não encontrem terreno fértil na realidade.

Cabo Verde, como qualquer País pequeno e particularmente vulnerável a choques externos , exige dos seus dirigentes mais do que entusiasmo: exige sentido de estado,responsabilidade, competência e sobriedade.

O povo até perdoa uma má colheita.

O que dificilmente perdoa é perceber que alguém semeou mal, sabendo que a colheita seria inevitavelmente ruim.

Por isso, a política precisa de lideres que saibam podar antes de ornamentar.

Que saibam peneirar antes de escolher.

Que saibam ouvir antes de discursar.

E que compreendem uma verdade tão antiga quanto a própria agricultura: “quem semeia ventos não pode exigir morangos na colheita.”

No fim, liderar talvez seja apenas isso:

“ escolher bem as sementes, preparar o terreno, cuidar da lavoura, eliminar o que sufoca , esperar o tempo certo e ter a serenidade de colher apenas aquilo que se teve a coragem de cultivar.”

Tão simples isso.

E não me perguntem, porque ninguém me CONTOU.

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