Desejo a todos um bom ano, muito embora as previsões não sejam animadoras, tendo em conta a geopolítica mundial, pois que o ambiente internacional molda e influencia a política doméstica dos países, num ano particular, em virtude da continuidade das guerras no médio Oriente e na Ucrânia sem fim à vista, e a investidura de Donald Trump como Presidente dos EUA. Tudo isto somado, faz com que seja difícil fazermos uma previsão mais otimista quanto ao futuro, daí a incerteza e a imprevisibilidade, requerendo de nós muita sapiência e um espírito de resiliência para podermos enfrentar os desafios da contemporaneidade.
Com este pano de fundo, vale perguntar: Em que tempo vivemos? Qual é o espírito do tempo? Atualmente, a maioria dos estudiosos da democracia considera que o mundo entrou numa recessão democrática. Por outro lado, o populismo parece ter ganho uma influência duradoura, com tendências iliberais e conspirativas, agravando ainda mais a tendência atual. É nesta encruzilhada que estamos a viver!
Por cá, será um ano peculiar, ano de muita luta política, antevendo renovação ou mudança nas lideranças políticas, com realce para os dois partidos do arco do poder: MpD e PAICV. Desde logo, começam-se a aguçar os apetites e palpites, e os pretensos analistas estão constantemente a fazer juízos políticos de curto prazo (sondagens, opinião nos meios de comunicação, eleições, etc), mas cada uma dessas avaliações tem um prazo de validade próprio e uma agenda precisa. As avaliações potencialmente duradouras exigem uma certa distância e um certo discernimento.
Eis a razão por que eu amo a democracia, dito de outro modo, ela é um conflito de interpretações, uma controvérsia que não tem um ponto final, a não ser uma luta pela imposição de uma «descrição correta» da realidade, sabendo que ninguém tem toda a razão em democracia!
Deixo estas pinceladas na sequência das comemorações alusivas ao dia da Liberdade e da Democracia – 13 de janeiro de 1991, que teve lugar anteontem, na Casa Parlamentar, com a realização da Sessão Solene evocativa dos 34 anos de instauração da democracia Liberal e Representativa no país, uma efeméride ímpar na história política contemporânea de Cabo Verde que, por incrível que pareça, ainda muita gente não conseguiu vislumbrar o real significado deste facto histórico e, tomando de empréstimo as palavras do cientista político norte-americano, Robert Dahl (2000, 62-63), “… a liberdade de expressão tem o seu valor próprio porque é útil à autonomia moral, ao juízo moral e a uma boa qualidade de vida”. Acrescentaria que a liberdade é um conceito ético fundamental. Somente a democracia concede alguma liberdade de escolha, uma oportunidade de planear a nossa vida de acordo com os nossos objetivos, preferências, gostos, valores, compromissos, convicções, etc. Na sua ótica, só a democracia protege a liberdade e proporciona oportunidade melhor do que qualquer outro sistema político alternativo que já alguma vez foi idealizado; ninguém defendeu mais energicamente este raciocínio do que John Stuart Mill, adverte Robert Dahl. Portanto, valeu a pena esta grande conquista do povo cabo-verdiano! Estamos todos de parabéns!
Não obstante estas vantagens da democracia, é visível nos tempos que correm, muita inimizade, maledicência, deslealdade, invencionices no seio dos partidos políticos, com objetivos claros e que deixam muito a desejar. Portanto, precisamos de democratizar mais a nossa democracia!
Com base nestas constatações e inspirando na leitura compenetrada do filósofo político, Innerarity, no seu último livro A Liberdade Democrática (2023), impeliu-me a questionar até que ponto a democracia rima com o ódio?
Seguindo as pisadas deste eminente filósofo político, um dos principais problemas da convivência democrática hoje é a proliferação dos chamados «discursos do ódio». No nosso caso, basta acompanharmos com atenção as publicações nas redes sociais e não só, pode-se notar um ror de gente que passa o tempo a destilar ódio sobre os outros. É importante lembrar que a liberdade de expressão não deve ser usada como desculpa para o discurso do ódio, a discriminação ou a violência.
Nota-se, por conseguinte, no interior dos partidos, um grupo bem identificado de militantes manifestando um ódio visceral contra determinados militantes e pergunta-se: Por que razão? Por isso, muitos concordam que vivemos em tempos de indignação, tempos de desinformação, e de muita confusão, numa era em que os mais “espertos” é que triunfam, fruto de intrigas, bajulação e outros quejandos.
Na verdade, esta crítica não é nova. Todavia, a novidade deve-se ao facto desse poder multiplicador dos meios e das redes, acabando por adquirir a dimensão do linchamento de caráter.
Ora bem, a proliferação deste tipo de denigrações do adversário explicar-se-ia pela infraestrutura tecnológica do novo espaço público e do surgimento das redes sociais, aliado a um déficit de cultura democrática, agravando ainda mais a situação.
Em virtude desses sentimentos, a crítica política aumenta de tom, atingindo o seu clímax: desconfiança, descrédito, indignação, etc, atingindo o alicerce da política, ao ponto de se começar a pôr em causa a própria democracia, e os populistas aproveitam!
Sintetizando, devemos interpretar bem este ódio e tomá-lo com toda a seriedade. Aproveito esta oportunidade para fazer um apelo no sentido de canalizarmos todas as nossas energias na recuperação da concórdia social, sermos mais tolerantes, termos alguma cortesia no trato, e devolver à política a nobreza que a carateriza, sob pena de abrirmos portas para a consolidação do populismo em Cabo Verde, porquanto os sinais são claros e já se notam um conjunto de ataques bem vincados contra instituições chaves da democracia no nosso país e se não começarmos a travar estas incursões, estas derivas iliberais, pode custar-nos muito caro no futuro e é bom recordar que os populistas são vistos como a verdadeira fonte de perigo para regimes democráticos, sobretudo os recém-chegados à política e que estão constantemente a desafiar as normas democráticas básicas. Todo o cuidado é pouco! Cuidemos da nossa democracia!
Viva a Liberdade e Democracia!


