A democracia não morre de um dia para o outro — ela se erosiona aos poucos

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Escrito à luz do que nos ensinam os autores de *Como as Democracias Morrem*, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

Vivemos tempos difíceis. A insatisfação cresce. A desigualdade aumenta. A paciência dos cidadãos está no limite. E é precisamente neste cenário que as democracias jovens como a nossa enfrentam o seu maior teste.

Faltam cerca de sete meses para as próximas eleições legislativas — um momento decisivo para o futuro de Cabo Verde. Será uma escolha entre o fortalecimento das instituições democráticas ou o risco real de entrarmos num processo de erosão lenta da nossa democracia, como já aconteceu noutros países.

Quando líderes políticos — eleitos democraticamente — começam a demonstrar nostalgia por regimes de partido único, enaltecem estruturas autoritárias como tribunais de zona ou milícias populares, e ainda se orgulham de ter um “entendimento sólido e de aço” de um sistema de exclusão política, a democracia deve acender todas as luzes de alarme.

Não é preciso golpe militar para derrubar um regime democrático. Como mostram Levitsky e Ziblatt, hoje em dia as democracias morrem de forma lenta e legal, através de:

– Deslegitimação da oposição,

– Ataques às instituições independentes,

– Intimidação de vozes críticas,

– E manipulação de regras para garantir hegemonia política.

O Chile de Pinochet, a Venezuela de Chávez e mesmo os Estados Unidos enfrentaram — e enfrentam — essa ameaça.

Cabo Verde, com toda a sua história de resistência e construção institucional, não pode permitir que o desespero social seja usado como pretexto para o retrocesso político.

Eleger alguém com claras tendências autoritárias — e com maioria quase qualificada no seio de um partido tradicional — é caminhar perigosamente na direção do abismo democrático.

A democracia exige vigilância, exige instituições fortes e exige sobretudo cidadãos conscientes de que não há soluções fáceis sem custos elevados para as liberdades de todos.

Como dizia Eduardo Lourenço:

“As democracias não morrem de morte súbita. Morrem por cansaço, por distração, por desistência.”

Nós não desistimos.

Democracia sempre. Partido único, nunca mais.