A entrevista foi boa; pena que Carlos Lopes se tenha “esquecido” de falar da gestão danosa de JMN.

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[1] Do lado de cá, de quem é bicho carpinteiro e gosta de meter bedelho nas orações de sapiência de quem realmente sabe muito sobre o desenvolvimento de Cabo Verde, convém informar que sou, assumidamente, um apreciador do Sr. Carlos Lopes. Ouvi-lo e vê-lo na diskontra de quem se sente em casa, no podcast Bocadurna, transmitiu aquela tranquilidade de um mais velho; e eu, macebo e pupilo, fui ouvindo cada ditame sobre o percurso elitista do desenvolvimento do país.

[2] Durante a sua intervenção, independentemente de onde ele se posicione no mapa ideológico e da dose de subjetividade que tempera o discurso, tudo soa quase como um ato litúrgico. Mesmo considerando o seu relativo afastamento do objeto de análise [o nosso Kota é neto de cabo-verdianos — esse passaporte sentimental tem o seu peso], algumas coisas ditas deviam ser tratadas como verdadeiro evangelho trazido do Sinai.

[3] Um exemplo: a fragilidade emocional e psicológica da nossa elite. Quando ele coloca o dedo na ferida, ao dizer que não compreende a descontinuidade dos grandes programas dos sucessivos governos, aí sim — o Carlos Lopes acertou no moche. Um bitaite certeiro. Talvez aqui a psicanálise consiga aliviar a nossa elite desse trauma: o velho complexo de superioridade de quem se sente grande assim que se senta na cadeira de chefe.

[4] No segundo momento da entrevista, o Dr. Carlos Lopes leva-nos numa viagem panorâmica pela história política e administrativa do país ― das primeiras horas da independência até aos dias de hoje. E foi precisamente nesta secção que surgiu um ponto verdadeiramente interessante: a questão da terra, da posse, como ferramenta para construir o “Novo Homem Cabo-Verdiano”. Uma espécie de laboratório social onde se pretendia transformar o cidadão em homo economicus.

[5] A lógica apresentada: depois da longa era da caridade colonial — em que os serviços existiam quase exclusivamente para que o faminto tivesse o que comer — surgiram as FAIMO a pagar salários aos trabalhadores rurais. E assim, quase por milagre, aqueles homens ganhavam a dignidade de participar no mercado como assalariados.

[6] Aqui, sim, sublinho com gosto: nenhum homem é livre se não for economicamente autónomo. Todas as outras liberdades estão grudadas nesse princípio — o do salário e não o da esmola — o do tudu pagu.

[7] No terceiro momento — aquele intermezzo entre o otimismo e o “devia-se, mas não se fez” — o Dr. Carlos Lopes colocou alguns pontos nos is, às vezes com a subtileza de minas antipessoais. O homem falou de tudo, e a entrevista podia ter sido nota 10 em 10, se tivesse tido coragem de falar da gestão dos investimentos públicos. Esse ser místico, quase mitológico, chamado dinheiro di nos tudu.

[8] Entre 2009 e 2016, foram investidos mais de 2 mil milhões de euros em obras públicas. E muitas dessas obras tiveram derrapagens tão absurdas que podiam ser classificadas como pornografia financeira. Material para adultos. E é aqui que a entrevista fraqueja: o Dr. Carlos Lopes, tão claro e preciso ao desenhar o caminho para o futuro, esqueceu-se de exercer a crítica essencial sobre como foi gerido esse dilúvio de dinheiro que o mesmo afiançou que fora investido “un txada dinheru”.

[9] Ele sabe — melhor do que todos nós juntos — que sem boa gestão do dinheiro público não há salto qualitativo que resista. Num país de recursos escassos, desperdiçar centenas de milhões de euros é burrice ou manha. Porque, ali onde foram feitos dois portos e/ou aeroportos ao preço de quatro, poderíamos perfeitamente ter construído, exatamente quatro, se a gestão tivesse sido decente.

[10] A entrevista foi boa. Mas ficou a faltar o essencial: o confronto com os elefantes que circulam livremente pelas contas públicas. Talvez numa próxima temporada do Bocadurna. Ou, quem sabe, num sermão futuro, devidamente ungido pela voz do mestre. Até lá, continuamos todos nesta procissão do desenvolvimento, de vela acesa, à espera da próxima entrevista do Dr. Carlos Lopes.