“Explorar o mundo é um direito da juventude, e também a sua forma mais pura de aprender.”
— Barack Obama
Nos últimos tempos, felizmente, algumas poucas vozes têm levantado um alarme sistemático sobre uma alegada “emigração em massa” da juventude cabo-verdiana, retratando esse fenómeno como uma tragédia nacional e responsabilizando o Governo por uma suposta fuga de cérebros. Trata-se de uma falácia política conveniente, mas desonesta, que ignora não só a história do país como também a natureza dinâmica e globalizada da juventude contemporânea.
Emigrar não é sinónimo de desistir. Ao contrário do que insinuam, muitos jovens que saem do país não o fazem por desespero, mas por curiosidade, ambição e desejo de crescimento. Querem estudar, querem trabalhar, querem abrir horizontes — e esse movimento é, em si, uma prova de vitalidade, não de falência.
Cabo Verde tem uma longa tradição de mobilidade, com pelo menos, mais de 250 anos. Desde os tempos coloniais até à era moderna, o cabo-verdiano sempre foi um cidadão do mundo. A diferença hoje é que muitos jovens saem, mas também regressam com mais competências, mais visão e mais capacidade de contribuir para o desenvolvimento nacional. Esta circulação é, portanto, um investimento silencioso no futuro.
Ao se tentar transformar a mobilidade jovem num discurso de medo e fracasso, mostra-se ser incapaz de compreender os tempos modernos. O mundo atual valoriza a internacionalização, o conhecimento multicultural, a experiência global. E, felizmente, a juventude cabo-verdiana já entendeu isso e está a beneficiar do excelente acordo de mobilidade com a UE conseguido por este Governo.
É certo que não se pode negar que existam desafios — no emprego, na habitação, na remuneração. Mas combatê-los exige seriedade e visão estratégica, não alarmismo político. A juventude quer oportunidades, sim. Mas também quer voar, experimentar, viver. E isso não é um sinal de falência do país, é um sinal de que formamos cidadãos com asas.
Em vez de nos rendermos ao discurso do pânico, devemos valorizar a coragem da nossa juventude que arrisca, que sonha e que se move. Eles não estão a fugir. Estão a construir o seu caminho. E Cabo Verde só tem a ganhar com isso.



Uma visão positiva e realista de um fenómeno que não é novo. A única novidade aqui é que dantes emigravam jovens sem formação, condenados a trabalho de baixo nível e mal remunerado e agora são jovens com formação, recebida no país e candidatos a um trabalho melhor remunerado e portanto aspirantes a ocupar uma posição mais digna na estrutura social do país da sua escolha para se estabelecerem e trabalhar. Vejo isso diariamente na Europa. Os cabo-verdianos já não são necessariamente, candidatos ao trabalho não-qualificado na construção civil.
Gostaria que falassem com números. Quantos partiram ? que idades?, que profissões ? A emigração é um fenómeno mundial. Cabo Verdeseria a excepção ?
“Explorar o mundo pode ser um direito, mas fugir da estagnação é uma necessidade.”
Nos últimos tempos, assistimos a tentativas frequentes de suavizar o fenómeno da emigração jovem em Cabo Verde. O artigo de Carlos Monteiro é um exemplo recente. Embora assuma um tom otimista e tranquilizador, essa narrativa romantizada ignora aspectos estruturais profundos que alimentam este êxodo contínuo. Precisamos, com seriedade, desmontar esta visão ilusória.
1. A juventude está a sair, sim — mas por falta de alternativas
Ao afirmar que os jovens saem movidos por “curiosidade”, Monteiro ignora uma verdade básica: muitos partem por desespero, frustração e ausência de oportunidades reais. O custo de vida aumentou, o desemprego jovem é alto, e o trabalho precário é a norma. O que se vende como “vontade de explorar” é muitas vezes um ato de sobrevivência camuflado de escolha.
2. A falácia do regresso com competências
Diz-se que muitos voltam mais preparados. Quantos? Com que oportunidades? E com que apoios? A maioria não regressa. E mesmo os que voltam enfrentam uma dura realidade: um mercado que não absorve as suas competências, salários incompatíveis com a qualificação, e a frustração de verem o seu potencial desperdiçado. A circulação de talentos só é virtuosa se houver estrutura de acolhimento — o que, infelizmente, ainda falta.
3. O discurso da mobilidade não deve esconder a omissão do Estado
Sim, viajar, estudar e trabalhar fora são experiências enriquecedoras. Mas quando isso se torna a única esperança de realização pessoal e profissional, temos um problema. Um país saudável é aquele que oferece alternativas dignas a quem fica, não apenas passagens facilitadas para quem sai. O acordo com a UE é útil, mas se for usado como válvula de escape para o fracasso interno, perde o seu mérito estratégico.
4. A romantização da emigração é um perigo político
A narrativa de que estamos a formar “cidadãos com asas” é bonita — mas perigosa. Torna invisível a fuga de cérebros, a ruptura familiar, o impacto psicológico da separação e o enfraquecimento do tecido produtivo nacional. Quando os melhores partem, o país perde mais do que números: perde capital humano, esperança e renovação.
Conclusão: coragem é encarar a realidade, não disfarçá-la
É tempo de parar de maquilhar a crise. Emigrar pode ser uma opção válida — mas só quando não for uma imposição silenciosa. Em vez de glorificar a fuga, devemos questionar por que razão o nosso país não está a conseguir segurar os seus jovens. Isso sim seria um debate útil. Porque a verdadeira força de uma nação não está apenas em formar cidadãos com asas, mas em garantir que eles tenham razões para querer ficar e construir aqui o seu futuro.
Caro ” Monte Cara” : Vi que fez uma análise aturada do meu artigo, o qual agradeço. Contudo, com o devido respeito, discordo da visão excessivamente sombria. Reconheço os desafios, mas a mobilidade jovem não pode ser reduzida a um “ato de desespero”. Muitos partem por ambição, não por fuga. E muitos regressam — ou contribuem à distância( não é a toa que a remessa dos emigrantes é uma das componentes mais fortes da nossa economia. Em vez de alimentar o discurso da paralisia, devemos focar na criação de pontes, não em levantar muros. Cabo Verde precisa tanto de quem fica como de quem vai e volta com novas forças.
A mobilidade, seja para e do estrangeiro, ou entre as ilhas, é um indicador de dinâmicas que merecem ser conhecidas de forma aprofundada.
Os dados, publicados pelo INE e mais recentes, são do 2021 para os estrangeiros (RePEI 2022) e do Censo 2021 para os residentes (IPEI). São dados certamente influenciados pelo período pós-pandemico, mas oferecem a fotografia mais recente disponível ao momento.
Uma informação é relevante: tivemos 12.703 “migrantes de retorno” (3% da população residente recenseada), dos quais o 43% dotados de instrução superior (até mestrado).
O Relatório “Migrações” do INE contém dados significativos e merece a leitura.
Agradeço ao cronista por ter debruçado sobre o tema. Para mim, trata-se do Tema, do Assunto. Para Cabo Verde e os cabo-verianos, um desafio enorme. Não concordo nem discordo da opinião do cronista, mas que é necessário um debate sério sobre o assunto, não tenho a menor dúvida.
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