A grande mentira da “paternidade”

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Nos últimos tempos, e em especial para o centenário de Amílcar Cabral, observamos um crescente movimento em torno da figura de um dos grandes líderes da luta pela independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, sendo, por alguns setores, considerado o “pai da nacionalidade Cabo-verdiana”. Embora a sua luta tenha sido crucial para a Independência, tal atribuição parece ignorar a complexidade e a profundidade da identidade Cabo-verdiana, forjada ao longo de cinco Séculos.

Cabo Verde, um Arquipélago com uma rica história e cultura robusta, desenvolveu-se desde os primórdios da sua colonização como uma terra de confluência de povos, culturas e ideias. Desde cedo, intelectuais e pensadores Cabo-verdianos como Eugénio Tavares, Baltasar Lopes e os Claridosos, entre outros, contribuíram para a edificação da cultura e identidade que ainda hoje nos define.

Esta cultura e este sentimento de pertença a uma Nação são muito anteriores ao processo de luta pela independência, que durou cerca de 12 anos, não podendo ser reduzidos a um único momento ou indivíduo.

Amílcar Cabral, sem dúvida, foi um estratega, cujos ideais de Independência e união entre os povos de Cabo Verde e Guiné-Bissau mobilizaram gerações. No entanto, ele próprio nunca se definiu como Cabo-verdiano.

Nascido em Bafatá, na Guiné-Bissau, Cabral sempre se posicionou como um líder Pan-africanista.

A sua visão de Independência, em grande medida, era uma resposta ao colonialismo, mas não um ato de criação de uma Nação ou de uma nacionalidade do zero.

Ao apelidá-lo de “pai da nacionalidade Cabo-verdiana”, corre-se o risco de apagar a longa e rica história da nossa formação identitária, assim como os contributos de gerações de intelectuais e cidadãos que, desde o início, ajudaram a moldar a cabo-verdianidade.

A nacionalidade Cabo-verdiana foi sendo construída com base na interseção de culturas e vivências que se foram enraizando no Arquipélago ao longo de Séculos.

Ser Cabo-verdiano é um resultado de Séculos de resiliência ante as adversidades do clima, resistência cultural, de Diáspora e de reinvenção.

Portanto, atribuir a paternidade de algo tão complexo e profundamente enraizado na nossa história a uma única figura, é uma simplificação que não honra a verdade histórica.

Não podemos reduzir a cabo-verdianidade ao processo de descolonização, nem podemos ignorar os fatores que nos constituem como povo há séculos.

Cabo Verde, com a sua literatura, música, gastronomia e modo de ser, sempre existiu como uma entidade cultural e social muito antes da independência política.

Infelizmente, o título de “pai da nacionalidade Cabo-verdiana” parece servir, para alguns, como um instrumento de legitimação política.

Este rótulo é muitas vezes utilizado para consolidar narrativas políticas que buscam monopolizar a interpretação da história nacional, manipulando figuras históricas a favor de agendas contemporâneas.

Ao reivindicar Cabral como o fundador da nacionalidade, certos setores tentam capitalizar politicamente o seu legado, apagando ou minimizando o papel de outros atores fundamentais no desenvolvimento da cabo-verdianidade.

Esse aproveitamento é uma distorção da memória histórica, pois descontextualiza o papel de Cabral para adaptá-lo às conveniências de quem hoje julga beneficiar-se da sua imagem. Transformar a luta pela independência em uma ferramenta de propaganda política não apenas empobrece o debate, mas também desrespeita a verdadeira diversidade de influências e protagonistas que moldaram a identidade Cabo-verdiana ao longo dos séculos.

Cabe-nos, como povo, estar atentos a essas tentativas de reescrever a história para fins políticos.

A construção da identidade de Cabo Verde é obra de todos os Cabo-verdianos, desde os primeiros colonos, passando pela Diáspora e chegando aos nossos dias.

Amílcar Cabral, foi um dos muitos que contribuíram para a emancipação política, mas não pode ser erguido como o único responsável pela nossa existência enquanto Nação.

A nacionalidade Cabo-verdiana não pode ser apropriada ou limitada a uma narrativa política específica, pois é um legado de todos nós.

OPAÍS.cv

2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada O País! Ao longo dos anos verificou-se um endeusamento de Cabral, que muito sinceramente, estou por compreender o motivo ou os motivos. Os cabo-verdianos precisam saber, quem realmente foi Cabral. Temos que ter investigadores sérios, para, despidos de quaisquer vestes ideológicos, dizer-nos quem foi realmente Cabral.

  2. O O País não publicou o meu comentário feito nesta notifica e nem vai publicar este. O Governo do MOD em portaria assinado pelo Ministro dos Transportes que autoriza a emissão de um selo com a efígie de Amílcar Cabral diz que este é o pai da nacionalidade cabo verdiana., Já o Ministro da Cultura tinha dito o mesmo. O País pode não publicar este meu comentário mas os cabo verdianos sabem e conhecem o que estou a dizer. Fala se em todo o lado que o Governo obedece a Pedro Pires.

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