A Ilha do Sal: Hub estratégico entre África do Sul, Portugal e EUA na independência de Cabo Verde

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Penso que é necessário um pouco mais de seriedade, de algum estudo e pesquisa, quando versamos sobre assuntos com contornos nacionais é certo, mas com uma forte implicância internacional ou assuntos que ultrapassam os interesses das nossas fronteiras. É o caso do aeroporto do Sal e o acordo firmado entre Cabo Verde e África do Sul. Existe toda uma história que precedeu a esse histórico Acordo e também existem consequências.

O que para mim não foi nada agradável é o facto de depois da queda do apartheid a África do Sul ter interrompida a escala do Sal e passar a usar a escala do Senegal.

O aspecto financeiro do acordo do Sal foi relevante sim, mas na verdade se tratou de uma decisão, eminentemente, política!

O que nos empurra, obviamente, para a não personalização das raízes do acordo e das negociações internacionais que o rodearam.

Da pesquisa e do apuramento e análise feitos à abundante e rica documentação existente resulta que o aeroporto do Sal foi ponto-chave para rotas aéreas e interesse geopolítico durante longos anos, mas também durante a transição para a independência. Isto está bastante documentado.

Na década de 1970, enquanto Cabo Verde se preparava para a independência, a Ilha do Sal tornou-se um activo estratégico para a aviação regional e a política internacional. O aeroporto da ilha, construído com apoio logístico e financeiro da África do Sul, e isto é muito importante, serviu como escala técnica para a South African Airways (SAA), permitindo que a companhia mantivesse rotas entre Joanesburgo e destinos europeus e americanos, mesmo diante do boicote africano ao regime do apartheid. Esta questão buliu com vários interesses africanos, europeus e americanos, pelo que não podemos enfatizar nem permitir a personificação deste caso. A personificação aqui pode ser considerado um jogo de cabra cega e mais nada.

Fontes históricas indicam que Portugal estava ciente da importância do aeroporto durante as negociações de independência, e há indícios fundados de que o entendimento sobre o uso da pista pela SAA foi introduzido nos canais diplomáticos entre Portugal, Cabo Verde e a África do Sul. Documentos digitais disponíveis não confirmam, porém, que tenha havido cláusula formal no acordo de independência; os termos operacionais foram ajustados posteriormente em acordos técnicos entre todas as partes.

Do lado norte-americano, relatórios públicos da CIA e do Departamento de Estado demonstram que os Estados Unidos acompanhavam de perto a situação do Sal. Para os serviços de inteligência americanos, o aeroporto era um ponto estratégico: a sua operação pela SAA e a manutenção de uma pista operacional eram fatores críticos para a logística regional e internacional.

O acordo de cooperação que se seguiu à independência permitiu à SAA operar rotas com direitos de tráfego limitados, garantindo a funcionalidade do aeroporto e consolidando o Sal como hub de reabastecimento indispensável para rotas internacionais. Este episódio ilustra como a Ilha do Sal se tornou um ponto de convergência entre interesses sul-africanos, portugueses e americanos, refletindo a complexidade geopolítica da transição de Cabo Verde para a independência.

Embora haja relatos de financiamento da África do Sul e de acompanhamento pelos EUA, a documentação primária detalhando contratos e telegramas diplomáticos permanece, em grande parte, em arquivos físicos. Pesquisas adicionais nos arquivos portugueses, sul-africanos e nas coleções FOIA da CIA podem fornecer detalhes mais precisos sobre os entendimentos e acordos firmados na época.

Com este resumo compacto vê-se que essa questão do aeroporto do Sal, sobretudo no período de boicote dos países africanos e sanções internacionais contra a África do Sul, tem um alcance real para além das nossas fronteiras locais.

É claro que Cabo Verde tinha que ser ouvido, considerado e tomar uma decisão. Todavia, sendo uma decisão mais política do que financeira, de acordo com as minhas fontes, quem foi determinante para a decisão da parte cabo-verdiana foi o ex-Presidente da República, senhor Aristides Pereira, com o apoio do Pedro Pires, que era o primeiro-ministro na altura.

Aliás, quem conheça o regime daquele período sabe como ele era dirigido e como se fazia a regência do seu funcionamento. Isto era claro como água da fonte!

[OBS- fiz este artigo mais com a intenção de esclarecer a importância do aeroporto do Sal, que serviu como um HUB no tempo colonial e como alternativa às operações da South África Airways no período do boicote africano e internacional. Não quero e não vou entrar em polémicas “tribais” ou quaisquer outras polémicas que não me dizem respeito]!