A inversão revolucionária

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Tenho ouvido, nos últimos dias, os circunstantes com muita atenção. E meditado, tranquilamente, nas suas palavras.

          

O PAICV continua com a sua alma revolucionária (herança dos tempos gloriosos do Partido Único) e só se adaptou ao novo figurino democrático porque caiu o muro de Berlim em 1989, no dia 9 de Novembro.

Isso é visível em cada acção e gesto dos maiorais desse partido, de clara extracção leninista.

Quando a sra. Janira Hopffer Almada fala, hoje, dos TACV fica-se com a impressão de que ela não fez parte de um Governo que teve QUINZE ANOS (repito, 15 longos anos!) para transformar a nossa companhia aérea e colocá-la, vá lá, num outro patamar! Falharam.

A verdade é que a gestão do PAICV foi absolutamente DESASTROSA nesse capítulo (os números estão aí, meus senhores…) e ficamos todos sem perceber porque é que a Dra Janira e os seus magníficos camaradas (como ela gosta de dizer, lembrando a velha saudação bolchevique!) não puseram, então, todo o “know-how” que dizem possuir ao serviço da tal empresa.

Não o fizeram por maldade?

Trata-se, pois, de um truque político monumental, que visa apenas, no meio de malabarismos primários, iludir e enganar os cabo-verdianos.

O MpD está no Governo há apenas 4 anos. Facto indiscutível. E conseguiu, contra a previsão dos apóstolos da desgraça, fazer aquilo que o PAICV não fez, por incapacidade, durante 15 anos: privatizar a empresa. E com bons resultados (os números estão aí, meus senhores e não vale a pena negar a realidade).

Só que, logo a seguir, veio a pandemia da Covid-19. E tudo mudou.

O MpD, pela primeira vez na história cabo-verdiana, está a governar num PERÍODO DE EMERGÊNCIA (extraordinary circumstances), o qual comporta consequências gravosas que ninguém de boa-fé pode ignorar.

Este é um facto relevantíssimo que os camaradas querem, todavia, apagar.

Mas o povo cabo-verdiano segue atentamente o noticiário internacional e sabe que isso não é nenhuma invenção do MpD ou de Ulisses Correia e Silva, e que as companhias áereas do mundo inteiro passam, hoje, por momentos complicados, com a queda das viagens, do turismo e da actividade económica em geral.

O mundo, da Europa aos confins da Ásia, vive tempos verdadeiramente sombrios. Entre Cila e Caríbdis…

Ora, não integrar este novo quadro na análise/avaliação política é de uma desonestidade sem par.

Mas há quem insista, a todo o vapor, na inversão da realidade (uma das técnicas preferidas, de resto, dos partidos de matriz revolucionária-marxista) e queira adaptar a realidade aos seus caprichos ideológicos.

É como se Humpty Dumpty, o célebre personagem do romance de Lewis Carroll, estivesse a falar. De modo autocrático.

As palavras e os conceitos são, pois, arbitrários e significam exactamente aquilo que essa gente quer.

Bem-vindos ao planeta da suave manipulação revolucionária!