Neste centenário de Amílcar Cabral, que acontece amanhã, 12, as celebrações parecem seguir um roteiro tradicional de reverência ao líder da Independência, ao estrategista que libertou dois países do colonialismo. Mas será que o que sabemos sobre Cabral reflete toda a verdade?
Seria esta a melhor forma de homenageá-lo, ou estamos, mais uma vez, a fechar os olhos para as complexidades e contradições que marcaram a sua vida e morte?
O assassinato de Cabral, em 1973, permanece uma das maiores interrogações da história contemporânea de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. Recentemente, figuras de destaque, incluindo o atual Presidente da República, José Maria Neves, não hesitaram em apontar o dedo para o próprio PAIGC, o Partido que Cabral fundou e liderou.
As intrigas internas e a luta pelo poder dentro do movimento de libertação são hoje tidas como fatores decisivos na sua morte. Mas a pergunta permanece: quem, de fato, orquestrou o assassinato? Teriam sido apenas rivais internos ou houve influências externas que ajudaram a selar o destino de Cabral?
Mais intrigante ainda é a questão de como Cabral seria como líder, caso tivesse sobrevivido. Conhecido por suas convicções marxistas e por sua liderança musculada, Cabral era, sem dúvida, um homem de sua época, influenciado pelos ventos revolucionários que varreram o Continente Africano e outras partes do mundo. No entanto, muitos se questionam se ele, tal como outros líderes revolucionários do seu tempo, teria se adaptado aos princípios de uma governação democrática. Há quem defenda que o seu apego ao marxismo e sua postura autoritária na condução da luta armada contra o colonialismo Português indicavam que ele não estava preparado para liderar um governo democrático pluralista.
Os métodos de Cabral eram, por vezes, implacáveis.
O PAIGC, sob sua liderança, operava de forma rígida, e a disciplina interna muitas vezes confundia-se com repressão.
Até que ponto isso foi um reflexo do contexto de guerra ou uma antecipação do que poderia ter sido um regime autoritário pós-independência? É uma questão que raramente é discutida nas comemorações do seu legado, mas é essencial para compreendermos o seu verdadeiro impacto.
Em vez de continuarmos a enaltecer apenas a face heroica de Amílcar Cabral, talvez seja o momento de questionarmos os aspetos mais controversos do seu papel na luta de libertação e refletirmos sobre as implicações de suas ideologias.
A luta pela independência, sem dúvida, exigia firmeza e estratégia, mas qual teria sido o preço a pagar em termos de liberdade política se Cabral tivesse vivido para governar?
A sua morte prematura, nas mãos daqueles que, teoricamente, estavam ao seu lado, deixa um vazio, não apenas no seu legado, mas também na história que nos foi contada. Ao fazermos perguntas difíceis, podemos estar mais próximos de uma verdade que, até hoje, continua envolta em mistério e silêncio.
Portanto, a melhor forma de homenagear Amílcar Cabral no seu centenário não é através da repetição das narrativas que o elevam a um pedestal intocável. A verdadeira homenagem seria confrontarmos as complexidades de sua liderança, os erros e acertos, e os desafios que deixou para trás. Sobretudo, é necessário que finalmente se investigue de forma séria e transparente as circunstâncias de sua morte e o verdadeiro papel dos seus aliados e inimigos, internos e externos.
Só assim poderemos fazer Justiça ao legado de Cabral e, ao mesmo tempo, tirar lições valiosas para o futuro.
Homenageá-lo com a verdade é o mínimo que podemos fazer para honrar sua memória e, quem sabe, evitar que os erros do passado continuem a moldar o nosso presente.
OPAÍS.cv



Para mim, a grande pergunta a fazer seria : Alguma vez Amílcar Cabral falou da independência de Cabo Verde fora da unidade Guiné/Cabo Verde ?
No cenário de guerra teria de haver mão dura. Aqui estamos de acordo. Mas, no contexto da independência, o regime seria marxista leninista ou ditadura do partido único. Nada de democracia. Daqui que o pensamento de Amílcar Cabral alicerça se inteiramente no marxismo . Admirador do ditador de Cuba , Fidel Castro a governação, se não fosse assassinado pelos seus pares seria uma cópia de Cuba. Mas, o centenário é uma tentativa de Pedro Pires de lavar a imagem de herdeiro de Cabral no ditadura de partido único de 1975 a 1991. Elevando Amílcar Cabral a categoria de DEUS, ele fica também como alguém que esteve perto e logo sem culpas.
Amílcar Cabral para merecer a veneração dos cabo verdianos bastaria que fosse apresentado como um homem de coragem, firme e lutador pelos seus objectivos. Todas as reformas feitas pelos portugueses nos anos 50, 60 e 70 do século passado são devidas as denúncias feitas na arena internacional por ele. Só este facto, torna o digno de todas as homenagens. Homem rico, Pedro Pires e a Fundação que dirige financiam tudo, não por Amílcar Cabral mas por ele. Quer lavar se da ditadura, das mortes e torturas da polícia política do PAIGC/CV, das vítimas da reforma agrária, das mortes dos comandos africanos na Guiné e do atraso que representou toda a governação dele durante quinze anos com corrupção e nepotismo.
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