A pós-verdade: Ou o Jogo das Narrativas?

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“Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário” George Orwell

Vivemos numa época e numa etapa da evolução da humanidade, caraterizadas pela incerteza e pela relativização da verdade.

A verdade, tantas vezes proclamada como um valor absoluto e intransponível, perdeu esse estatuto a favor das narrativas e da normalização do anormal.

Os fatos ou a realidade objetiva ficou para trás, e perdeu o lugar a favor das versões e dos fakes news.

A comunicação tradicional cedeu espaço e lugar à comunicação virtual, instantânea em que os fatos e os acontecimentos se sucedem a uma velocidade meteórica, mas, ao mesmo tempo, perdem a sua atualidade com a mesma rapidez com que apareceram.

O dito transformou-se em não dito;

O visto e visível passou para a dimensão do impercetível ou nunca visto;

Os fatos foram relegados à mera categoria do que for narrado.

Esta é a nova realidade dos tempos de hoje, e provavelmente, serão estas as caraterísticas essenciais da sociedade futura, marcada, de forma profunda, por trivialidades, absurdos e obsessão pelo parecer ser.

É a chamada era da pós-verdade ou da imposição de narrativas.

Pois bem, mas o que vem a ser isso na realidade?

A pós-verdade, segundo alguns estudiosos, não é sinônimo de mentira, mas também não é, de todo, a promoção da verdade. Trata-se de um instrumento que cria e forma a opinião pública de maneira tal que os fatos reais e objetivos deixam de ter relevância, em detrimento de meios apelativos às emoções e as crenças das pessoas sem respaldo com a realidade.

Ao contrário da verdade, que figura como o princípio genuíno, por ser gerado por elementos que expressam o verdadeiro, a autenticidade e que pode ser comprovada por meios documentais ou testemunhais, e em conformidade com a realidade, a pós-verdade prima-se por outros princípios norteadores em que um provável fato não ocorrido se impõe, não dependendo a sua aceitação de qualquer ação comprovativa, estando, pois, por isso, muito mais perto do falso, por não ter relações diretas com a realidade

O apelo à razão e a sujeição às regras básicas de aquisição do conhecimento, que outrora eram a referência e o comando dos passos e movimentos do homem, perderam essa relevância, tendo o racional, neste novo tempo, sido relegado a um plano de ente menor e, praticamente, deixou de ter significado. O que conta, hoje, é a relativização da verdade, a banalização da objetividade e a imposição da dimensão emocional no discurso, muito embora a realidade esteja a dizer e a andar em sentido contrário.

Esse fenómeno ganha importância quando é transposto para o domínio da política. É, sobretudo, nessa esfera que a pós-verdade se impôs e é abundantemente utilizado para moldar a opinião pública e fazer esta acreditar no que não existe.

Os debates no nosso parlamento exemplificam de forma cabal que também entre nós imperam as estratégias de imposição das narrativas. O caso mais emblemático é o crescimento do PIB.

Enquanto o governo afirma que o PIB cresceu cinco vezes mais do que quando recebeu o país em 2016, e parece que a afirmação é verdadeira, sobretudo porque corroborada pelo INE, a oposição não diz que não há crescimento económico, mas adianta que o mesmo não tem reflexo na vida das pessoas. Ou seja: Não nega que haja crescimento do PIB, mas cria uma narrativa para o pôr em causa, através de um argumentário de que não se vê esse crescimento refletido no rendimento das pessoas.

E será mesmo assim?

Ora bem, o crescimento do PIB é uma coisa. A distribuição da riqueza gerada é outra coisa. Misturar as duas coisas serve para criar uma narrativa que terá como finalidade desvalorizar e desconstruir o próprio enunciado do crescimento económico como algo positivo.

Esta narrativa de que o crescimento económico não chegou às pessoas cria uma realidade ou verdade paralela, que não tem a ver com o crescimento económico em si, mas, antes, com a política de distribuição da riqueza.

Em termos meramente estatístico, não será muito difícil de perceber que se o PIB cresce, o PIB per capita também aumentará, a menos que o crescimento da população for superior a da riqueza gerada.

A questão que se poderá colocar é se a riqueza produzida se se concentra numa minoria ou se se beneficia toda a população.

Mas esta seria uma outra discussão, e não menos importante, é certo, mas não deixaria de ser uma outra discussão.

Mas, de qualquer forma, a condição básica para que haja uma política de distribuição da riqueza é, sem dúvida nenhuma, que haja crescimento económico, requisito sem o qual nenhuma política de carácter social será possível implementar.

Em suma, a oposição para não dar parabéns ao governo, e se calhar não o poderá fazer, pelo crescimento económico registado, cria uma narrativa em que coloca o acento tónico nas políticas de distribuição, talvez como lhe convém, e não nas políticas de crescimento.

Mas o problema da pós-verdade não se põe, apenas, no campo da construção de narrativas ou da desconstrução de fatos objetivos. Hoje, com a emergência e expansão das rédeas sociais, muitos atores se têm socorrido, de forma absolutamente abusiva e irresponsável, a fake news.

A entrada em cena desse instrumento de intervenção no campo da (des)informação, tornou a problemática da pós- verdade mais complexa e de controlo quase, de todo, impossível. A difusão de falsas informações que poderia, em condições normais, ser facilmente refutada, encontra eco e recetividade numa parte das pessoas, que não apenas acredita nela, como se transforma em seus principais agentes de disseminação, amplificando e desenvolvendo, involuntariamente, a rede de distribuição de falsas notícias.

Entre nós, ultimamente, tem havido recurso a fake news nas redes sociais, mas, e não só, embora estejamos, ainda, muito longe do período de disputas eleitorais. Num país que se mostra cada vez mais polarizado, e em que as diferenças programáticas essenciais estão praticamente esbatidas, a tentação para introduzir mecanismo de distorção comunicativa como fake news é muito grande.

Esperava-se que esse expediente fosse utilizado na época de campanha eleitoral e não agora, tendo em conta o sucesso obtido em outras paragens em períodos semelhantes, sobretudo em países em crise ou com graves problemas de cariz social e institucional.

Contudo, uma deriva nesse sentido no nosso país traz problemas complicados para quem a praticar, tendo em conta que o nosso sistema partidário é bastante rígido e pouco permeável a essas ofensivas.

Todavia, independentemente de tudo, é preciso estar-se sempre atento para não se ser surpreendido.

Alguém questionava, com alguma razão, se a imposição de uma era da pós-verdade não conduzirá a uma era da pós-democracia.

Eis uma questão que ninguém, ainda, sabe responder de forma taxativa!

P.S.: Para alguns, reféns do seguidismo cego ou afetados pelo fanatismo à qualquer coisa, os dados não contam. O que conta é a realidade paralela que constroem a partir das suas incontidas fantasias.  

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