A privatização de hoje da CVA é um ponto de chegada

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Hoje, cumpre-se um ponto importante da inserção dinâmica de Cabo Verde no Sistema Económico Mundial, ou seja, da agenda do País para o desenvolvimento (intencionalmente escreveu-se “agenda do País” ao invés de “agenda do governo”).

A privatização da Cabo Verde Airlines para um parceiro estratégico é o passo necessário e incontornável para fazer do País a plataforma aérea do Atlântico Médio e conferir, assim, a estas Ilhas a centralidade que merecem, no cruzamento de meridianos e paralelos. Isto foi defendido desde a década de noventa do século passado, e só não foi concretizado, desde essa altura, por razões que a própria razão dificilmente explica. Mas como “águas passadas não movem moinhos”, vamos olhar para a frente. E unir esforços na defesa dos nossos interesses coletivos, sem preconceitos e, sobretudo, sem populismos. A Nação deve unir-se quando os interesses são os da Nação, o que não significa unicidade de vozes, mas afinação de vozes naquilo que é essencial. Uma orquestra, uma boa orquestra, é integrada por dezenas de instrumentos com tonalidades diferentes, que se afinam, intencional e calculadamente, na busca da perfeição, da harmonia.

A privatização de hoje é um ponto de chegada, que exigiu visão estratégica, convicção, empenhamento, capacidade de sedução e de negociação e trabalho aturado. Por isso estão de parabéns os que lideraram este processo, em particular os que ocupam, circunstancialmente, lugares políticos e técnicos no Ministério das Finanças, sem esquecer a liderança clara da Chefia do Governo. Para trás ficam as dúvidas, as incertezas, as hesitações e a garantia de que o Estado e o País perdem um lastro para ganharem um ativo de incalculável valor, não só por aquilo que em si representa, mas, sobretudo, pelos efeitos indiretos e induzidos sobre a economia e, portanto, com efeitos diretos na melhoria da condição social dos cabo-verdianos.

Mas a privatização é também um ponto de partida. A plataforma aérea não se constrói com a privatização da companhia, apenas. É fundamental o envolvimento do aeroporto escolhido para receber a plataforma, o que implica gestão altamente qualificada e em sintonia fina, investimentos avultados nas infraestruturas e serviços aeroportuários, aliança estratégica e convergência para o objetivo, pré definido, de todos os agentes, instituições e empresas aeroportuárias, mobilização, liderança; dos que estão no front office (como os serviços de assistência aos passageiros, de check in, de handling, de fornecimento de combustíveis, de duty free, de segurança e fronteira e do catering, nomeadamente) e dos que estão no back office (como o controle de tráfego aéreo, os serviços de combate a incêndios e de prestação de ajuda, os serviços de saúde, por exemplo). Tudo a funcionar como a mais afinada orquestra. Porque, bem no fundo, uma plataforma aérea resulta da aliança estratégica entre o aeroporto (latu senso) e a companhia de bandeira e, a partir de hoje, é este o principal desafio.

Resulta, também, da transformação de um potencial mercado em mercado efetivo e, para que assim seja, o envolvimento político, das Instituições do Estado, é fundamental, sobretudo no domínio da cooperação regional e internacional, assim como a competência e o esforço conjunto que se faz na promoção comercial.

O trabalho que se tem pela frente é, portanto, inquestionavelmente mais exigente e pesado do que aquele que o processo de privatização exigiu. É complexo, é difícil, é “barra pesada”. Mas é, sobretudo, motivador, porque o prazer e o orgulho que derivam da edificação de tudo isso é infinitamente maior do que todos os sacrifícios e custos que se possam consentir.

Vamos então, todos, cada um com a visão que o seu ponto de fuga lhe proporciona, na pluralidade e na diversidade, convergir para o núcleo, o centro deste círculo, que se convencionou chamar plataforma aérea no Atlântico Médio. Está ao nosso alcance. É um desafio geracional. E ninguém deve ser excluído ou autoexcluir-se, porque todos têm o mesmo direito de dele participar, através do diálogo construtivo e em defesa dos interesses superiores de Cabo Verde, das gerações atuais e das gerações futuras.

Vamos todos, sem exceção, ser positivos e festejar o dia de hoje, para que possamos ter a oportunidade e o direito de festejar o dia de amanhã.

Viva Cabo Verde!

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1 COMENTÁRIO

  1. Pessoalmente, sei quão cara foi essa questão para o então Ministro, mais tarde Vice-Primeiro Ministro e até Primeiro Ministro Gualberto do Rosario. No seio do MpD do anos noventa, poucos sabem, mas a luta ideológica que se travou em torno da economia, da construção de um Estado Liberal, em contraste com a herança marxista dos 15 anos anteriores era bem mais feroz do que externamente com um Paicv, ainda em cinzas. Hoje, pode dizer-se que USC conseguiu ter um partido ideologicamente mais coeso em torno da economia que o Veiga e Gualberto juntos tiveram. Isto é obra, queira-se ou não! Ulisses Coreia e Silva (ou Olício) como carinhosamente é tratado em Porto Mosquito, acaba de escrever e inscrever o seu nome na lista dos Grandes Homens Lideres do Seculo XXI. Supera, de uma só pancada JMN, PP, e em certa medida o próprio Carlos Veiga. Quem não deve estar a dormir, nesses dias é o JMN. Vê sua pesada herança económica transformada em uma grande oportunidade estratégicas. UCS contudo, tem um outro adversário: o “Expresso das Ilhas”, mas como bom democrata, Ulisses saberá lidar com este novo “Semana” ou mesmo “Avante” ou “Grhama” que está a nascer nas esferas do próprio MpD. Não compreendo como foi possível o HC transformar-se num mais refinado “Francisco Lousa” crioulo. Que mutação, Humberto!?

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