A Solidariedade que Nos Define – Projecto Zé Luís Solidário

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Um princípio enraizado na alma cabo-verdiana

Recordo com ternura os dias na nossa casa em Luzia Nunes. Quando havia o abate de animais, a nossa mãe, com gestos que ensinavam mais do que mil palavras, separava porções de carne e colocava-as em pratos para partilhar com vizinhos e familiares. Dizia-nos com firmeza e amor: Nu ka ta kumê nôs só – “Não vamos comer sozinhos.” Era esta a expressão viva de uma cultura de partilha e cuidado, que moldou gerações.

Com o tempo, estas práticas tornaram-se menos frequentes, mas o espírito permanece. Ainda hoje, no coração do cabo-verdiano, pulsa o desejo genuíno de cuidar do outro, de estender a mão, de partilhar o pouco que se tem com quem tem menos.

Tenho acompanhado de perto o trabalho do Projeto Zé Luís Solidário. E posso afirmar, sem hesitação: trata-se de uma das expressões mais autênticas do que é ser cabo-verdiano. Um projecto que ultrapassa o mero apoio físico – proporcionando tratamentos médicos em Cabo Verde, Portugal e Senegal – e toca profundamente as almas, reacendendo esperança onde antes havia apenas dor e sofrimento.

O mais impressionante é que tudo isto tem sido possível graças à generosidade dos próprios caboverdianos – cá dentro, na diáspora nos Estados Unidos e na Europa. Cada centavo investido neste projecto nasceu do coração solidário de quem acredita num Cabo Verde mais justo e mais humano.

O nosso povo é resiliente. É altruísta. Tem raízes fundas nos valores cristãos e na nossa inconfundível Morabeza. Apesar do distanciamento progressivo de alguns valores, e do surgimento de fenómenos preocupantes como o abuso infantil, o feminicídio, os assaltos ou a delinquência juvenil, ainda é nítido o reflexo da solidariedade no nosso quotidiano. Ainda trocamos pratos. Ainda partilhamos afectos. Ainda acreditamos no poder transformador do amor.

É urgente que não percamos este caminho. Que as nossas mãos continuem estendidas para ajudar, que os nossos corações permaneçam sensíveis à dor alheia, e que o amor (esse amor prático, concreto, ao estilo de Jesus) nunca nos falte.

O verdadeiro retorno de tudo o que damos vê-se no brilho dos olhos de quem foi ajudado, nos sorrisos que substituíram as lágrimas, na esperança que floresceu onde antes reinava o sofrimento. O Projeto Zé Luís é apenas um exemplo, mas é um espelho da alma de um povo.

Cabo Verde foi anunciado como uma nação de rendimento médio alto, com conquista que nos orgulham. Mas que cada passo em frente seja acompanhado de mais justiça social, mais oportunidades, mais partilha. E que cada cabo-verdiano se sinta parte desta missão comum: continuar a transformar a nossa pequena terra numa grande nação.

Um bem-haja ao Projeto Zé Luís Solidário, e um bem-haja ao povo cabo-verdiano, que continua a dar testemunho de que a solidariedade e a morabeza são os maiores patrimónios da nossa nação.

Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.” Gálatas 6:2