A solução é analisar os resultados da sondagem, com objetividade e senso crítico

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Uma pessoa amiga quis saber a minha opinião, como economista e cidadão, sobre o que por aí corre, relativamente à sondagem realizada pela empresa especializada, Afrossondagem, e divulgada recentemente. Respondi da seguinte forma: Os estudos não têm inconsistências. A Afrossondagem é uma empresa boa, com gente capaz, que percebe do assunto e respeitadora da deontologia, que tem trabalhado para agentes internos e externos, como é o caso da Embaixada Americana.

Estar a justificar o resultado da sondagem com argumentos técnicos, pondo em causa a idoneidade da empresa e dos seus recursos humanos é, no mínimo, lamentável. E não é moral e eticamente aceitável.

Já vi argumentos de personalidades que deveriam ter mais cuidado, baseados na contradição entre as informações estatísticas do INE e a satisfação que essas estatísticas deveriam trazer às pessoas, determinantes, assim se entende, do voto num determinado sentido. É um erro grave e qualquer economista que aprofundou o estudo da disciplina de Política Económica tem a obrigação de saber que não é assim.

Há, para começar, uma primeira distinção a fazer entre:

Informação e consistência estatística, por um lado, e perceção do eleitor, por outro.
São coisas distintas, fundamentadas em elementos tb distintos.

Os factos económicos são consequências ou geram fenómenos económicos, que, por sua vez, determinam resultados. São elementos de ordem material, digamos, num certo sentido, físico. Por exemplo, o investimento aumenta, faz crescer o PIB e gera mais emprego e mais rendimento.

Isso não se traduz, necessariamente, ou automaticamente, na perceção, pelos sujeitos económicos (pessoas, empresas, instituições, por exemplo) de uma melhoria efetiva na sua condição. Essa perceção é subjetiva, individual, psicológica. Não é física.

Os deficits de perceção podem resultar de mecanismos diferentes.

Por exemplo, os objetivos das ações do governo, que produziram os resultados esperados pelo governo, podem estar desfasados das ambições, desejos e prioridades dos indivíduos, das empresas, das instituições e dos grupos sociais;

Mesmo havendo aderência entre os objetivos fixados pelo governo, e os resultados obtidos, com as ambições dos governados, estes podem não ter essa perceção por razões várias que não facilitam essa mesma perceção, como, por exemplo, deficits de informação e comunicação;

O problema dos lag’s. Lag, como conceito de economia e, mais especificamente, da Política Económica, é, grosso modo, o tempo necessário para que uma medida de política económica produza resultados estatísticos, portanto, mensuráveis matematicamente, produza a perceção dos seus resultados, produza uma avaliação do mesmos e defina uma atitude eleitoral.

O grande objetivo da Política Económica é garantir a coerência das medidas, ações e uso calculado dos instrumentos com o objetivo de se alcançar uma determinada atitude eleitoral.

Colocada a questão dessa forma, é fácil de entender que uma deficiente política económica pode levar a resultados bons, na perspetiva do governo, pode traduzir-se em invejáveis informações sobre o comportamento das variáveis e estatísticas económicas, sem, no entanto, se traduzir na perceção, pela maioria do universo eleitoral, desses resultados e, assim, se traduzir no voto desejado pelos responsáveis pela governação.

Negar a coerência e tecnicidade de sondagens, realizadas por quem tem formação específica nesse domínio, e já deu provas sobejas do seu saber, não é um bom caminho. É o caminho escolhido pela avestruz. O caminho que leva ao fundo do poço. Fácil de trilhar, porque a gravidade auxilia.

A solução é analisar os resultados da sondagem, com objetividade e senso crítico, para corrigir, havendo tempo, o que não correu bem.