Quando a tragédia bate à porta, a tentação dos extremos é grande. Mas é precisamente nos momentos de maior dor que precisamos regressar aos princípios que nos guiam. O que aprendi no Liceu Ludjero Lima, em São Vicente, continua vivo e atual: a virtude está no meio termo.
Nestes dias difíceis, recordo-me de um ensinamento que recebi em São Vicente, do meu professor de latim, Padre Bernardo de S. Nicolau, no tempo em que estudava no Liceu Ludjero Lima: in virtus medio est — a virtude está no equilíbrio. Nunca me cansei, não me canso e nem me cansarei de invocar este princípio no meu dia a dia, pois ele é um convite constante à ponderação e ao afastamento dos extremos.
Sobretudo agora, perante as últimas chuvas em São Vicente, Cabo Verde, que ceifaram vidas e destruíram bens sem piedade, é urgente recordar que não é tempo de procurar bodes expiatórios. Há fenómenos que ultrapassam a vontade e o controlo dos homens — e mesmo as nações mais desenvolvidas e com maiores recursos sofrem, por vezes, perdas e dores semelhantes.
Não estamos, seguramente, em tempo de oportunismo político ou partidário. Estes são tempos em que poder, oposição e povo devem estar de mãos dadas. É o tempo da união, da solidariedade genuína, de apoiar quem precisa e de trabalhar juntos para reconstruir.
Agir com equilíbrio não significa indiferença. Significa agir com justiça e sensatez, olhando para a verdade sem distorções, apoiando os que sofrem e prevenindo, dentro do possível, que tragédias semelhantes voltem a ocorrer.
A virtude está, e continuará a estar, no meio termo: firmeza na ação, humanidade no coração e lucidez na palavra.


