Existe uma tendência para apoucarmos os nossos ganhos como país, desde a Independência a esta parte. Com facilidade dizemos mal dele e com dificuldade dizemos bem. A crítica mora na ponta da nossa língua e o elogio morre encravado na garganta! Difundimos quase com leviandade os rumores que nos afundam e torcemos o nariz à notícia sobre a realidade dos nossos sucessos. O que digo não é transversal a todos os estratos sociais, claro, mas diz respeito a uma importante franja de técnicos da … técnica e da … política (em sentido lato). Não quero dizer com isso que querem que o país esteja mal, mas apenas que não se diga que está bem! Admitir que está bem (razoavelmente bem) desconstrói os pressupostos dados como firmes e sólidos. Que tem dirigentes bons e também maus e assim-assim, admite-se! Como em todas as equipas de todos os tempos. Há quem conhece bem o país, quem desconhece e quem não quer conhecer de todo ou então se especializa em conhecer os filamentos que estão mal. E os há com certeza, mas só se conhece verdadeiramente quando não se toma a parte pelo todo! Ouço muitas vezes pessoas com pose de técnico altamente especializado dizer que CV deve fazer isto e aquilo e aqueloutro, o que, “por acaso”, já fez anos atrás; que deve refletir sobre assado, coisa que até já implementou faz tempo. Não somos tão distraídos assim!
A nossa democracia é então o costumeiro bombo de festa para muita gente. Põem a nossa democracia de rastos, catando exemplos caricatos, quando o mundo inteiro aplaude de pé. E se tivermos a ousadia de informar, ainda que timidamente, que estamos no lote dos 35 países mais democráticos do mundo (e só não estamos no lote dos 20 por causa da participação e cultura políticas) e que fazemos parte do grupo dos 41 países com maior liberdade de imprensa no mundo (muito acima, por exemplo, dos Estados Unidos, Itália e Brasil) somos trucidados por uma metralhadora verbal ou afrontados com o estafado argumento de estarmos a enganar as organizações internacionais. Só estamos bem quando dizemos que estamos mal! Houve até quem tivesse dito que, depois de uma “aturada pesquisa”, havia descoberto que afinal eram os próprios países a fornecer os dados às organizações internacionais do setor. Burros, são, pois, os dirigentes de países que fornecem dados que os enxotam para o fundo da tabela.
Damos conferência de imprensa (com cara séria e sorriso na alma) quando descemos nos rankings, ficamos macambúzios quando subimos. Crucificamos o sistema de saúde, mesmo com uma esperança média de vida e uma taxa de mortalidade infantil melhores do que a nona economia do mundo que é o Brasil. A economia cresce (o PIB per capita, em PPC, se tivermos em conta os dados de 2023 e o último censo, está acima dos 9.000 dólares), a dívida desce (107% do PIB), o desemprego diminui (10.3%) e o nosso orçamento do Estado mais do que duplicou em menos de 10 anos (para perto de 900 milhões de Euros) e é financiado em mais de 82% com recursos próprios, mas mesmo assim estamos a andar para trás.
O que temos conseguido ao longo dos tempos (mesmo quando não o reconheçamos) é esforço de muita gente, a medalha não vai apenas para quem dirige, mas sobretudo para as pessoas que acreditam que nós, cabo-verdianos, dirigentes ou não, em CV ou na emigração, não somos tão mau assim. Não é imperativo kantiano criticar sempre porque tudo está mal, mesmo quando esteja bem. Tenho muitas críticas, confesso, umas feitas, outras por fazer, mas também muito orgulho do que fizemos e temos vindo a fazer, como Estado e como Nação. Não tomo a arvore pela floresta e não ando de lamparina em punho a colecionar defeitos para pintar o meu quadro negro. Há gente porfiada em nos empurrar para baixo quando precisamos de mais braços a nos puxar para cima. Abrenúncio, pessimistas de profissão que teimam em nos encolher a alma! Arranco a trave dos olhos para ver em toda a largura o que me cerca e fica ainda para além de mim. Olho para os problemas, os grandes, com otimismo crítico. Olho também para as pequenas coisas, com certeza, até miudezas, irritantes por vezes, mas elas não definem de modo algum o que somos e muito menos o que podemos fazer!


