Alargamento do horário das aulas é uma das novidades do novo ano letivo 2026/2027

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O alargamento do horário das aulas, anunciado como uma das novidades do ano letivo 2026/2027, é uma medida que merece ser analisada com serenidade, profundidade e, sobretudo, colocando no centro o aluno, o professor e a qualidade das aprendizagens.

À primeira vista, aumentar o tempo de permanência dos alunos na escola pode parecer uma decisão positiva. Mais tempo pode significar mais oportunidades para consolidar conhecimentos, recuperar aprendizagens, desenvolver competências, praticar atividades experimentais, trabalhar a leitura, a matemática, as tecnologias, o desporto e as artes. Para alunos com maiores dificuldades, um acompanhamento adicional pode ser particularmente importante.

Contudo, mais horas letivas não significam automaticamente melhores resultados.

A primeira questão que devemos colocar é: o que vamos fazer com esse tempo adicional? Se o alargamento do horário representar apenas mais aulas expositivas, mais conteúdos e mais exercícios, corremos o risco de aumentar o cansaço dos alunos sem produzir ganhos proporcionais na aprendizagem. O tempo escolar precisa de ser utilizado com qualidade, com metodologias diversificadas e centradas no desenvolvimento efetivo das competências.

O aluno deve estar no centro.
É preciso considerar a idade dos alunos. Uma criança do ensino básico não tem a mesma capacidade de concentração que um adolescente do ensino secundário. Horários excessivamente longos podem provocar fadiga, desmotivação, perda de atenção e até rejeição da própria escola.

Por isso, o alargamento deve ser acompanhado de uma organização pedagógica inteligente, com momentos de pausa, atividades práticas, trabalho de projeto, expressão artística, educação física, apoio pedagógico e espaços de recuperação.

A escola não pode transformar-se simplesmente num lugar onde o aluno permanece mais horas sentado numa carteira.

E os professores?
Este é outro aspeto fundamental.
Não podemos discutir o aumento do horário escolar sem discutir as condições de trabalho dos professores. Mais tempo de aulas significa necessariamente maior exigência na preparação, acompanhamento, avaliação e gestão das turmas.

Num sistema educativo que já enfrenta desafios relacionados com a falta de professores em determinadas áreas, a medida deve ser acompanhada por um adequado planeamento de recursos humanos.

Não se pode exigir mais dos professores sem garantir condições para que possam fazer melhor.

É igualmente importante proteger o tempo destinado à preparação das aulas, reuniões, avaliação, formação contínua e acompanhamento individual dos alunos. O trabalho docente não começa quando toca a campainha e não termina quando termina a aula.

As famílias também serão afetadas.
Uma alteração do horário escolar terá impacto direto na organização das famílias.

Pais e encarregados de educação precisam de saber com antecedência como serão estruturados os novos horários, a que horas os alunos entram e saem, como funcionarão os transportes escolares e quais serão as condições de alimentação.

Em muitas famílias cabo-verdianas, especialmente nas comunidades onde os pais trabalham fora de casa, a escola desempenha também uma importante função social. Um horário mais alargado pode até ser uma vantagem, desde que existam segurança, alimentação, transporte e acompanhamento adequados.

Infraestruturas e alimentação são indispensáveis.
Não podemos aumentar o tempo de permanência dos alunos na escola sem olhar para as condições físicas das escolas.

Salas adequadas, água, instalações sanitárias, espaços de recreio, bibliotecas, laboratórios, equipamentos tecnológicos, espaços desportivos e alimentação escolar são elementos essenciais.

Se um aluno permanece mais horas na escola, é legítimo perguntar:

Tem onde almoçar? Tem condições para descansar? Tem acesso à água? Tem espaços adequados para atividades? Os transportes estão assegurados?

Estas perguntas são tão importantes quanto a própria decisão de aumentar o horário.

A realidade de Cabo Verde deve ser considerada.
Uma política educativa nacional não pode ser simplesmente importada de outros contextos.

Cabo Verde tem uma realidade própria, com características geográficas, económicas, sociais e culturais muito particulares. A organização do horário escolar deve considerar as especificidades das diferentes ilhas, dos meios urbanos e rurais e das comunidades com maiores dificuldades de acesso.

Uma solução que funciona bem num determinado país pode não produzir os mesmos resultados em Cabo Verde.

Precisamos de políticas educativas pensadas para os nossos alunos e para a nossa realidade.

Mais tempo deve significar mais oportunidades.
Na minha opinião, o verdadeiro desafio não é simplesmente aumentar o número de horas. É aproveitar melhor o tempo escolar.

O horário adicional poderia ser utilizado para:

– Recuperação e consolidação das aprendizagens;

– Reforço da leitura, escrita e matemática;

– Apoio individualizado aos alunos com dificuldades;

– Atividades de ciência e tecnologia;

– Educação artística e cultural;

– Educação física e promoção de estilos de vida saudáveis;

– Orientação vocacional e profissional;

– Desenvolvimento de competências digitais;

– Educação para a cidadania;

– Projetos ligados à realidade local e à cultura cabo-verdiana.

Dessa forma, o alargamento poderia representar uma verdadeira oportunidade de transformação.

Também é preciso avaliar os resultados.
Uma medida desta dimensão não deve ser implementada apenas porque parece teoricamente positiva. Deve ser acompanhada e avaliada.

É necessário estabelecer indicadores claros: os alunos estão realmente a aprender mais? Os resultados melhoraram? A assiduidade aumentou? A motivação manteve-se? Os professores estão sobrecarregados? As famílias estão satisfeitas?

Se os resultados forem positivos, a medida deve ser consolidada. Se forem identificados problemas, será necessário corrigir o percurso.

Como profissional da educação e alguém que acompanhou durante muitos anos a realidade das escolas cabo-verdianas, considero que o debate deve ir muito além da pergunta sobre quantas horas os alunos ficarão na escola.

A pergunta fundamental deve ser:
Como transformar cada hora passada na escola numa hora de aprendizagem, crescimento e preparação para a vida?

Sou favorável a tudo aquilo que possa melhorar a educação e proporcionar mais oportunidades aos nossos alunos. Mas defendo que mais tempo escolar deve vir acompanhado de mais qualidade, melhores condições, professores valorizados, apoio às famílias e uma forte componente pedagógica.

Porque, no final, não queremos alunos simplesmente mais tempo na escola. Queremos alunos que saiam da escola mais preparados, mais competentes, mais críticos e mais capazes de construir o futuro de Cabo Verde.

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