Artur Correia adverte para necessidade de “dar tudo por tudo”, alertando para risco real de reversão na luta contra o paludismo na Praia

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O Consultor em Saúde Pública e Sistemas de Saúde, afirma que Cabo Verde ainda não vive uma emergência de saúde pública por causa do paludismo, mas avisa que o cenário pode agravar-se rapidamente caso falhe a resposta coordenada. Com cerca de cem casos reportados na Praia, o País enfrenta o risco de perder a certificação da OMS como território livre da doença

Em entrevista ao OPAÍS.cv, Artur Correia que está a coordenar, em regime de voluntariado, a resposta emergencial ao Paludismo, explicou que a sua decisão é movido pelo dever cívico e pelo amor ao País, confirmando estar na linha da frente do combate ao paludismo.
Doutorado e especialista em Saúde Pública, Epidemiologia e Paludologia, Artur Correia alerta que, embora o Cabo Verde não esteja oficialmente em situação de emergência, a ameaça é real e exige ação imediata de todos os setores. A “task force” multidisciplinar, o reforço diário das operações nos bairros mais afetados e o apoio contínuo da OMS compõem a estratégia para travar a transmissão e evitar a perda da certificação internacional alcançada em 2024.

OPAÍS.cv – Motivação pessoal e envolvimento. O que o inspira pessoalmente a estar na linha da frente desta luta contra o paludismo no Município da Praia?

Artur Correia – Inspira-me o dever cívico e o amor a Cabo Verde.

Gravidade e contexto atual. Considera que o paludismo representa, neste momento, uma emergência de saúde pública para Cabo Verde? Por quê?

Não seria uma emergência em saúde pública, neste momento, mas poderá evoluir para essa situação, caso não fizermos o nosso “trabalho de casa”! Digo nós, pois quero dizer todas as autoridades e entidades envolvidas nas questões sanitárias, nomeadamente os ministérios de Saúde, do Ambiente, das obras públicas, do Turismo, a Comunicação Social, as autoridades aeroportuárias, as Câmaras Municipais, as ONG’s e os cidadãos em geral, etc.

Risco de perda da certificação. Cabo Verde alcançou a certificação da OMS como País livre de paludismo, mas agora enfrenta o risco de a perder. Acredita que as ações em curso são suficientes para evitar essa reversão?

Para se perder a certificação, teremos de diagnosticar mais de três casos de paludismo autóctone, num mesmo foco, durante três anos consecutivos. Neste momento estamos a rever a classificação dos casos de 2024. Caso se constatar que são, de facto, autóctones, e tendo em conta a situação desfavorável de 2025, só nos restaria o ano de 2026! Temos de dar tudo por tudo, para interromper a transmissão da doença, na Praia, ainda este ano! É o que estamos a fazer com o reforço das ações de vigilância epidemiológica, ambiental e entomológica. A eficácia dessas ações foi reforçada com a presença diária nos focos de paludismo afetados, com especial destaque para a zona de Fonton e Cobon.

Foi criado uma “task force” multidisciplinar, que se reúne diariamente, para fazer o balanço das ações do dia anterior e a programação para o dia seguinte!

De igual modo, a Comissão Multissetorial Antivetorial tem-se reunido semanalmente, ao nível da Direção Nacional de Saúde. Todas essas ações têm recebido apoio de proximidade da OMS.

Números e resposta. Têm sido reportados perto de 100 casos de paludismo no Município da Praia. Este número preocupa? Que medidas concretas estão a ser tomadas para inverter esta tendência?

Claro que preocupa, num País recentemente certificado como “livre de paludismo”. Convém salientar que esse número, também, inclui casos importados, sobretudo da Guiné-Bissau e Senegal. Além das medidas organizacionais, estratégicas e operacionais, para o reforço da resposta, reforçou-se a análise diária dos casos e a respetiva resposta na investigação do caso na comunidade, com o tratamento antivetorial, com o tratamento domiciliar, peridoméstico e espacial com inseticida e pesquisa de mais casos, para um diagnóstico, notificação, investigação e resposta o mais precocemente possível, segundo as normas existentes, para a tomada de medidas.

Distribuição geográfica dos casos. A situação está concentrada apenas na Praia ou há registos de casos em outros Municípios do País?

Têm aparecido casos pontuais em Santa Catarina de Santiago. Mas os casos importados têm sido registados em várias Ilhas (Santiago, São Vicente, Santo Antão, Sal, Boa Vista e Fogo).

Que mensagem gostaria de deixar aos Praienses e aos Cabo-verdianos em geral, sobre a importância de se unirem nesta luta contra o paludismo?

Gostaria de passar uma mensagem de confiança e colaboração para com as autoridades sanitárias e os seus parceiros nesta luta. Que cada um faça a sua parte, na procura dos serviços de saúde, assim que sentirem sintomas de paludismo, na eliminação de águas estagnadas no ambiente peridoméstico, no tratamento de reservatórios de água a céu aberto, incluindo piscinas, em estreita colaboração com os Serviços de Saúde, do Ambiente e da Câmara Municipal.