As eleições em Cabo Verde e o Estreito de Ormuz

Os conflitos no Médio Oriente, envolvendo grandes produtores de petróleo, têm impacto direto nos mercados globais. Num mundo cada vez mais interdependente, a instabilidade política e militar provoca choques de oferta, aumenta o risco geopolítico e intensifica pressões inflacionistas à escala mundial, afetando a energia, os transportes e os bens essenciais.

O agravamento das tensões entre os Estados Unidos, Israel e Irão, que culminou recentemente com um ataque a este último, poderá refletir-se no preço do crude, sobretudo se houver perturbações no Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial. Um eventual bloqueio dessa via estratégica poderá, rapidamente, empurrar o preço do barril que hoje ronda os 70 dólares para acima dos 100 dólares, desencadeando um efeito em cascata sobre os custos logísticos, as importações e o custo de vida a nível global.

Cabo Verde, enquanto economia aberta e tomadora de preços internacionais, é particularmente vulnerável a choques externos. Em regra, esses choques traduzem-se em impactos diretos na inflação, no rendimento disponível e na qualidade de vida das famílias cabo-verdianas.

Neste contexto, num ambiente de elevada incerteza, a experiência governativa, a capacidade de decisão estratégica, a estabilidade institucional e a credibilidade externa tornam-se fatores decisivos para proteger a economia, preservar empresas e postos de trabalho, assegurar o pagamento de pensões e salvaguardar os serviços essenciais.

Importa reconhecer que, embora geograficamente distante, o Estreito de Ormuz pode ter relevância indireta nas eleições de 17 de maio, na medida em que o voto, que deve ser sempre consciente e ponderado, nestas circunstâncias, exige uma responsabilidade acrescida na escolha de uma liderança lúcida, capaz de enfrentar turbulências globais, tomar decisões firmes e manter o país a funcionar, protegendo os mais vulneráveis.

Associar instabilidade externa a lideranças frágeis, voláteis ou sem experiência política e técnica pode ser potencialmente explosivo, comprometendo a capacidade de resiliência do país, aumentando o risco económico e fragilizando os fundamentos sociais e institucionais.

Os cabo-verdianos devem ter presente que, quando o mundo treme, não se experimenta, protege-se. E protege-se com competência, estabilidade e liderança segura.

Esperemos que não seja necessário enfrentar cenários adversos. Ainda assim, é imprescindível estar preparado. Se for preciso, o país deve ter à frente uma liderança experiente e com provas dadas. No dia 17 de maio, essa responsabilidade estará nas mãos de todos os cabo-verdianos, jovens e menos jovens, homens e mulheres, empresários, classe média e trabalhadores, que devem exercer o seu voto com plena consciência, ponderação e sentido de responsabilidade para com o futuro do país.