Existem alguns caricaturistas que são realmente imparciais. Dizem que andam por aí com seu bloco de desenho, lápis afiado e/ou caneta na mão, preparadinhos para satirizar qualquer figura pública que se atreva a cometer uma gafe, muitas vezes nem isso. Dizem também que eles são como o Monstro do Lago Ness: muitos já ouviram falar dele, mas ninguém realmente o viu em ação.
Lendas à parte, a verdade é que os caricaturistas políticos em Cabo Verde são mais previsíveis que o sol nascendo no Leste. A cada novo escândalo, lá vai o nosso amigo, todo contente e o alvo de sempre na mira. Sim, porque há quem acredite que a neutralidade do caricaturista está diretamente ligada à sua capacidade de desenhar o mesmo rosto, do mesmo político, pela milésima vez. Fica até uma dúvida no ar: será que ele não se cansa? Ou será que a prancheta dele tem uma espécie de contrato vitalício com aquele político específico? Cá entre nós, muitas vezes nem se trata de desenhar nada; alguns deles apenas se limitam a fazer montagens, que até uma criança com acesso ao Canvas é capaz de fazer com um simples clique. Esses não são artistas e nem caricaturistas. São os chamados de manipuladores/editores de imagens. Não seremos todos, pessoal? Basta entrarmos em algum app que o permita fazer e puff… a mágica acontece. Será isso arte? Hum…fica a minha indagação.
Por exemplo e voltando ao que interessa, quando surge um escândalo fresco, daqueles bem cabeludos, que merecem uma charge com o selo de qualidade “risadas garantidas”, pensamos: “Ah, agora vai, agora ele vai desenhar algo épico!”. Penso eu, esfregando as mãozinhas. Mas, não. O que acontece? Nada. Nem uma linha, nem uma piadinha sutil, nem sequer uma orelha exageradamente grande para simbolizar os outros atores políticos no palco das trapalhadas nacionais. E olha que alguns desses atores estão sempre “pres(id)entes” no centro do espetáculo, mas aparentemente, como já tinha mencionado, na prancheta dos nossos caricaturistas, eles têm um passe VIP para não serem incomodados. Porque será? Seria de facto interessante entender os estado “das coisas” e o porquê de “muitas outras coisas”, não?
E mais, quando se pergunta por que o lápis não atacou aquele outro lado, a resposta é sempre a mesma: “Eu sou livre! Eu sou imparcial!”. Sim, sim, “nha boy” sabemos que és livre como um pássaro… que, por alguma razão misteriosa, só voa em círculos ao redor do mesmo galho. Bom, talvez ele tenha medo de explorar outros terrenos, ou talvez o galho seja tão confortável que ele não sente vontade de sair dali. Afinal, desenhar novos personagens exige criatividade, trabalho, ousadia e, Deus nos livre, um novo ponto de vista.
Pah, o que me deixa frustrada é que o país está cheio de material para ser satirizado. Se jogarmos uma pedra para o alto, é bem provável que ela caia em cima de um escândalo colossal esperando ardentemente para ser desenhado. Mas, por algum motivo, esses escândalos parecem invisíveis para certos caricaturistas/editores de imagens/cartoonistas. Talvez o lápis deles tenha algum tipo de filtro seletivo, ou quem sabe eles desenvolvem uma súbita alergia a novos/outros rostos políticos.
Então, ficamos assim: o cartoonista, sentado confortavelmente na sua cadeira, com uma expressão de satisfação, “desenha” várias vezes os mesmos políticos com as orelhas de abano. E nós, o público, continuamos rindo, e digitando mensagens do tipo “morri”, “mi ja bo xtraaaaam”, ou pior ainda, “mortei, rindo até 2060” – mesmo que a piada já tenha sido contada mil vezes. Afinal, quem precisa de neutralidade quando se tem um lápis tão teimoso?


