Multiplicam-se mensagens de pesar pelo passamento do primeiro Bispo Cabo-verdiano, falecido ontem, aos 88 anos de idade
As mensagens chegam de todos os quadrantes da Sociedade, até dos meios políticos.
Comunicados, notas de pesar, reações, mensagens nas diversas redes sociais exprimem sentimentos pela morte do Bispo que chegou à então Diocese de Santiago de Cabo Verde, em 1975, praticamente, 13 dias antes de se declarar a independência Nacional.
UCS
O Primeiro-Ministro já expressou pesar pela morte do Bispo Emérito, e observa que o Governo e o povo de Cabo Verde, prestam “homenagem e agradecimento” à memória e ao trabalho de Dom Paulino, “Homem, que serve de exemplo à nossa Sociedade pelos seus valores, sensibilidade e à causa do amor aos outros”.
Jorge Santos
O Presidente da Assembleia fala em momento de “muita tristeza” para a nação toda. É que segundo observou, Dom Paulino Livramento Évora “marcou profundamente” a evolução, o sentimento cristão dos Cabo-verdianos, seja no País, seja na diáspora.
Frei António Fidalgo
O Ministro Provincial dos Capuchinhos fala, por sua vez, na morte de um homem que soube dar identidade à Igreja nestas ilhas, numa altura em que se estava “muito dependente” de Portugal e da sua Conferência Episcopal.
António Fidalgo de Barros, observa que “não foi fácil” a gestão da Igreja sobretudo nos tempos em que Dom Paulino assumiu a condução, mas garante que o Prelado esteve “muito bem” no leme da Igreja, que conduziu com “muito equilíbrio” e “muito bom senso”, durante 34 anos.
Em declarações reproduzidas pela Rádio Nova, onde o próprio Dom Paulino manteve uma forte colaboração ao longo de muitos anos, com o programa “A Voz do Pastor”, o Frei Fidalgo lembra que Dom Paulino era “muito respeitado” por todos, incluindo as autoridades. “Ele se impôs. Fez-se respeitar e fez respeitar a Igreja”.
Redes sociais
Outras mensagens estão vertidas nas muitas páginas de redes sociais. Há uma linha comum: Cabo Verde perde um grande homem.
Dom Paulino foi nomeado para Bispo a 21 de abril de 1975, foi Ordenado Bispo, em Cacuso, Angola, a 1 de junho do mesmo ano e no dia 22 entrava solenemente na Diocese. Em 2004 deu-se a criação da Diocese de Mindelo mas manteve o pastoreio da Diocese de Santiago, agora apenas com as ilhas de SANtiago, Maio, Fogo e Brava. Em 2009 resignou-se por limite de idade. Faleceu domingo, a uma semana de completar 88 anos de idade.



Morreu o homem que impediu a deriva marxista de assaltar e dominar Cabo Verde. Pouco antes da Independência Nacional, precisamente entre 22 de junho e 5 de julho de 1975, o novel regime autoritário do Paigc deu seu aval ao Vaticano para a criação da Diocese de Cabo Verde. Um jovem padre, de nome Paulino Evora, natural da Cidade da Praia, que exercia seu o sacerdócio em Angola, foi visto pelo regime, como um parceiro ideal na implantação da ditadura do Paigc. Pensavam os dignatários do regime: jovem, progressista, patriota e comunista. Engano do regime: jovem sim; patriota sim e por aí ficou. Cedo, muito cedo, os camaradas de balalaicas descobriram ter apostado na “pessoa errada”, reconheciam mais tarde. Suas mensagens de Natal eram autênticas tormentas para o regime. Suas homilias eram mais escutadas e atormentavam mais os dignatários do regime que o povo cristão. Durante as campanhas eleitorais de 1990 o Paicv pós a circular a maior infâmia deste mundo contra Paulino: que a Igreja havia instruídos seus fieis a votar MpD. Certa vez, de visita uma das paróquias de Barlavento, contava ele, um garoto aproximou-se dele e disse: “Nho Bispo de MpD”. Outra vez perguntaram ao D. Paulino se os padres poderiam ter partido. A resposta foi excecional: Padres não têm partidos, mas têm opinião! D. Paulino foi, entre 1977 e 1990 a principal cara da oposição ao regime dos barbudos. Denunciou as opressões do regime, recusou a nacionalização das terras da diocese, denunciou a reforma agrária do João Perreia da Silva, denunciou a violência contra padres franciscanos e diocesanos em Santa Catarina e São Domingos, e fez finca-pé a várias iniciativas opressoras do regime. Nunca criticou os ex-seminaristas convertidos ao ateísmo tambarina. Tratou-os com finesse. Sempre que convidado às festas que o regime fazia para fantasiar o regime, D. Paulino ora não ia, ora comparecia e ficava calado do início ao fim de faustosas cerimónias. Fundou com o Pe. Fidalgo o Terra Nova, aquele que Pedro Pires um dia chamou de “jornalzinho da oposição”. O estranho nisso, é que o regime não admitia a existência de uma oposição, porém reconhecia a existência do seu jornal. Numa jogada nunca percebida pelos dignatários do regime, D. Paulino convenceu o Papa João Paulo II a visitar Cabo Verde, acontecimento que selou o boletim de óbito do regime dos barbudos tamabrinas. D. Paulino Evora foi para nós cabo-verdianos, o que D. Helder Câmara foi para os brasileiros durante a ditadura militar. Hábil negociador, exímio detonador de regimes autocráticos, os dois têm muito em comum. Assim podemos descrever os dois. Como São Paulo, e não por mero acaso, “Paulino combateu um bom combate, terminou a sua carreira terrena, mas guardou a Fé”. Eis que como qualquer um de nós, os mortais, chegou a hora estar lá perto do Criador, que desde sempre Paulino serviu com fé inabalável. Rest in Pace, D. Paulino.
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