Há doenças que começam no corpo e há outras que, antes de adoecerem o corpo, começam a adoecer a razão.
A demência, essa palavra pesada que a medicina reserva para processos de deterioração das funções cognitivas , não deve ser confundida com arrogância, intolerância ou perda de lucidez politica. Mas há uma espécie de demência metafórica que se instala silenciosamente quando o homem começa a acreditar que o cargo ou função que ocupa é maior do que a pessoa que é.
É aí que tudo começa.
Há quem chegue a um cargo de responsabilidade – político, governante, deputado ou simples protagonista de uma circunstância – e, pouco a pouco , passe a confundir o cargo com a própria identidade. O poder deixa de ser instrumento e transforma-se em espelho. E diante desse espelho começam a enxergar-se como expoentes máximos de uma intelectualidade que, de tão invertida , já não consegue reconhecer o pensamento do outro.
Esquecem o berço.
Esquecem o caminho.
Esquecem que antes do título existia o homem e que , depois do título, continuará a existir apenas o homem.
E COMEÇAM A CATUCAR TUDO E TODOS.
A palavra torna-se arma , a divergência passa a ser afronta, a opinião diferente transforma-se em traição e os companheiros de ontem passam, subitamente, a ser suspeitos de alguma coisa . Surgem então as ameaças veladas , as insinuações, os recados nas entrelinhas e essa estranha necessidade de intimidar quem ousa ver a vida por outra diapasão.
É nesse momento que alguma coisa começa a adoecer.
Não necessariamente a mente – porque não somos médicos de ninguém -, mas certamente o ambiente, a convivência e a própria polis.
Nos partidos, como nas instituições, não existem verdades que pertençam eternamente a uma só pessoa. Existem convicções, princípios, argumentos e, sobretudo o direito sagrado a divergência.
COGITO, ERGO SUM.
PENSO, LOGO EXISTO
Mas existe uma segunda verdade que não podemos olvidar:
O outro também pensa, logo também existe.
E talvez seja precisamente aí que começa a verdadeira sabedoria: compreender que a nossa existência não diminui porque o outro pensa diferente.
Quando observo determinados escritos de pessoas com responsabilidades, dirigidos aos próprios companheiros de trincheira , carregados de suspeições , ameaças veladas e uma especie de superioridade moral numa disputa que deveria ser aoenas um campeonato interno , confesso que fico preocupado.
Não pela disputa.
A disputa é saudável.
Preocupa-me a forma como desputamos.
Porque uma organização politica não pode transformar os seus adversários internos em inimigos. Não pode fazer da divergência uma doença , da crítica uma heresia e da fidelidade ao pensamento próprio uma espécie de crime de lesa-humanidade.
É preciso cuidado.
Muito cuidado.
O mundo já está suficientemente carregado de intolerâncias, radicalismos, de agressividades e de sinais depressivos no sentido lato do termo. A nossa higiene mental, política e humana exige sapiência, para que possamos identificar os sinais antes que contaminam a nossa convivência.
Por isso cuidemos dos sinais.
Cuidemos das palavras.
Cuidemos da nossa própria saúde ética/moral.
E, sobretudo respeitamos uns aos outros.
Assim se evita a demência das certezas absolutas: pensando, duvidando, ouvindo e, sobretudo, respeitando o ALTER EGO.
Cuidemos dos sinais.
Bom domingo a todos.

