Construções nas orlas marítimas, pesca ilegal e desenfreada de tubarões, extração de areia, pesca com recurso a materiais inapropriados, presença de lixo e de águas residuais nos mares de Cabo Verde são exemplos citados pelo professor, biólogo marinho e investigador Rui Freitas para mostrar que “o Cabo-verdiano não é um povo do mar” e que é preciso uma atenção urgente por parte das autoridades, local e nacional
O Oceano, considerado uma das grandes fontes de recurso e de sobrevivência do homem, cobre 70 por cento da superfície do planeta e em Cabo Verde a sua extensão é maior do que a da terra.
É importante, estima o investigador, a nível da extração dos recursos vivos e não vivos, mas também do valor cénico e patrimonial para um País insular e arquipelágico como o nosso, mas a sua preservação deixa muito a desejar por parte dos Cabo-verdianos.
“O Cabo-verdiano não é um povo do mar, não temos ainda uma cultura do mar, basta reparar para a educação que, muitas vezes, é feita com aversão ao mar”, diz o biólogo marinho, aconselhando, no entanto, para que se crie e se aumente esta cultura do mar e se preserve os recursos disponíveis de modo que as gerações futuras não sofram as consequências advenientes das ações que agora se praticam.
“É um apelo e uma questão que se deve encarar com muita seriedade. Temos de pensar muito seriamente no que fazemos nas zonas costeiras sem regulamentação e fiscalização. As autoridades têm de tomar o rumo e o bom curso das ações costeiras com impactos nos oceanos”, alerta Rui Freitas referindo-se mais especificamente, neste caso, às construções nas orlas marítimas em algumas ilhas do país como na do Sal, São Vicente e Santiago mais precisamente na Cidade da Praia onde diz ser um “mau” exemplo nesta matéria.
Perante alguns perigos já visíveis e derivados das mudanças climáticas – a subida do nível médio da água do mar e da mudança do regime das tempestades -, o professor e investigador pede as autoridades que atuem agora, antes que seja tarde demais.
“No Sal, Santa Maria tem os dias contados. Queiramos ou não, a Cidade não vai resistir milhares de anos. Vai submergir e há países na mesma situação. As construções que se fazem (…) são uma tremenda ignorância por parte de quem lida com questões de gestão do litoral e não há outra forma de ver isso. Todas as construções no litoral vão sentir os efeitos das mudanças climáticas um dia, porque o betão pode ser forte, mas não resiste à força dos oceanos e da natureza e logo se vê o que pode acontecer”, idealiza o entrevistado da Rádio de Cabo Verde.
Atento aos desequilíbrios ambientais e sociais, pede Rui Freitas uma ação do Governo, local e nacional, para mais tarde não ter que criar planos de emergência, de mitigação ou de recuperação para casos irrecuperáveis.


