Os grandes temas estratégicos que impactam o desenvolvimento de Cabo Verde devem ser tratados com abertura, pragmatismo e foco no que realmente interessa: melhorar a qualidade de vida da população. Infelizmente, ainda há quem prefira interditar certas discussões antes mesmo que elas ocorram, como se estivéssemos presos a dogmas do passado.
A recente polémica em torno da relação entre Cabo Verde e a NATO é um exemplo claro disso. Em pleno século XXI, não podemos continuar reféns dos preconceitos anti-Ocidente que marcaram a era da Guerra Fria. O mundo mudou radicalmente desde a queda do Muro de Berlim, e os desafios globais são outros: hoje, vemos novas tentativas de violação da soberania dos Estados, ameaças à segurança marítima e reconfigurações de alianças geopolíticas que exigem posicionamento claro e estratégico.
A questão central não é se Cabo Verde deve ou não aderir à NATO. Essa decisão, aliás, não está sequer em pauta. O problema é que o PAICV, na figura do seu Presidente, parece querer transformar o tema num tabu, como se fosse pecado sequer discutir as possibilidades. Não podemos trancar portas e janelas para o desenvolvimento apenas porque uma ideologia tem receios infundados. O tempo do pensamento único acabou. Estamos na era do debate aberto, onde as ideias devem ser confrontadas e vence quem melhor convencer a população.
Entendo que o Governo não queira alimentar polémicas sobre um tema que,
oficialmente, não está na agenda. No entanto, este é um debate necessário, pois
trata-se de um tema que pode reforçar a segurança nacional e, potencialmente, abrir novas oportunidades socioeconómicas para o país.
O ex-Primeiro-Ministro Gualberto do Rosário trouxe, numa publicação no Facebook, um ponto de vista relevante: “a aproximação de Cabo Verde ao espaço transatlântico poderia ter transformado a trajetória do nosso desenvolvimento há décadas”. Ele recorda que “nos anos 1990 já se discutia uma relação diferenciada com a NATO e os EUA, com potencial para impulsionar a economia cabo-verdiana a um nível nunca antes visto”. Infelizmente, conclui, “essa ambição foi deixada de lado e optou-se por uma abordagem mais tímida, limitando-se à Parceria Especial com a União Europeia.”
Cabo Verde não pode se conformar com a timidez! Para contrariarmos o nosso nível de pobreza e estar à altura das legítimas expectativas da nossa juventude, temos de ser ousados e criar novas soluções. Se existe uma oportunidade capaz de transformar o nosso perfil socioeconómico por meio de uma relação mais profunda com a NATO, por que não explorá-la? Devemos, no mínimo, ter a abertura de mente para debater o tema com maturidade, visão estratégica, pragmatismo e sentido de oportunidade.
Um dos pontos mais emergentes dessa relação tem sido a segurança marítima.
Como é consabido, Cabo Verde, com uma das maiores zonas económicas exclusivas da África Ocidental, enfrenta desafios recorrentes e crescentes como tráfico ilícito, imigração ilegal e o risco do terrorismo transnacional que, claramente, ultrapassam os meios disponíveis e a nossa capacidade de intervenção. A NATO, por sua vez, tem a necessidade de antecipar os seus problemas através de uma linha de avançada intervenção capaz de mitigar os riscos da sua exposição, pelo que o reforço da nossa capacidade de monitorização e resposta no Atlântico médio pode ser encarado como uma oportunidade para aliança.
Além do impacto direto na segurança, não é de se desconsiderar um efeito económico que pode ser excepcional. Por exemplo, o exercício Steadfast Jaguar 2006, realizado pela NATO em Cabo Verde, trouxe benefícios financeiros e operacionais significativos, gerando receitas extraordinárias para a economia, além de reforçar a imagem do país como um parceiro confiável no domínio da defesa e segurança internacional. Esses exercícios, se repetidos ou ampliados, poderiam dinamizar setores estratégicos da nossa economia, criando empregos e rendimento para as famílias, bem como aumentando a circulação de capital.
Importa destacar que, antes de se trazer à pauta o tema da adesão, existe o Programa de Parceria Personalizada (Individually Tailored Partnership Programme – ITPP), que permite o desenvolvimento de parcerias de cooperação ajustadas às necessidades e interesses específicos de cada país
A minha expectativa era ver as diferentes forças políticas a se engajarem num debate profícuo, focado nos nossos interesses, para construção de uma solução de parceria que possa explorar todas as possibilidades de enquadramento neste programa. Um debate que ultrapasse preconceitos ideológicos e seja guiado por uma visão moderna e informada do papel que Cabo Verde pode e deve desempenhar no Atlântico.
Cabo Verde sempre foi um ponto estratégico no Atlântico. A sua posição geográfica, combinada com uma visão política arrojada e bem fundamentada, pode permitir ao país aproveitar as dinâmicas de segurança e cooperação que a NATO proporciona, de modo a transformar desafios em oportunidades. Fechar-se ao debate é desperdiçar oportunidades que podem impactar gerações futuras.
Precisamos pensar grande, agir com pragmatismo e estar preparados para as exigências de um mundo globalizado e em constante transformação. O futuro não
se constrói com dogmas ultrapassados, mas com coragem e visão estratégica.
Cabo Verde deve posicionar-se como um ator ativo e influente, e não como um
mero espectador do seu próprio destino.
O debate é essencial. O tabu é que não serve a ninguém



Eu concordo na plenitude consigo! Mas, para quando esse debate Dr Luís Silva?
O debate é respondabilidade de todos, a começar pela Comunicação Social. De qualquer das formas os dados estão lançados e vamos, ao nível do parlamento, dar mais contributos para abrir o debate no espaço público.
Parabéns, Luis Carlos Silva, pela coragem, clarividência e lógica com que desenvolveste as ideias neste artigo de opinião. Também já deves ter reparado que nas hostes da tua família partidária, ninguém comentou. Será que o tema não merece comentário? Ou será que as pessoas têm excesso de cautela cautela ou mesmo medo de se pronunciarem, concordando, discordando ou acrescentando outras nuances? Sinto vergonha da actual classe ou pretensa classe política. Ninguém ousa dar opinião.
Obrigado pelo comentário. O partido acompanha a opinião, que está alinhado com o que a agenda que o governo está a cumprir. Aceito que é preciso mais ousadia, mais exposição e liberdade de pensamento. Só aceleramos o desenvolvimento com ideias ousadas que só surgem de intensos debates.
Cmpts
LCS
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