Ouvi atentamente a recente entrevista de um académico que, com longa carreira internacional, decidiu oferecer a sua leitura sobre África e sobre Cabo Verde.
Respeito o percurso, mas discordo profundamente das suas conclusões sobre o nosso país.
E é importante dizê-lo, porque Cabo Verde merece ser analisado com rigor e não com generalizações elegantes.
Cabo Verde não é reativo é resiliente e estratégico
Afirmar que “a principal estratégia económica de Cabo Verde é reativa” é, no mínimo, injusto.
Desde os anos 90, Cabo Verde construiu um Sistema Nacional de Planeamento sólido, com Planos Estratégicos de Desenvolvimento Sustentável (PEDS I e II) e uma visão Cabo Verde 2030 alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A nossa economia adapta-se porque o contexto muda pandemia, crises energéticas, choques externos.
Adaptar-se não é ser reativo: é ser resiliente e inteligente.
Comparar Cabo Verde a Seychelles é um erro de escala e contexto
Seychelles tem 100 mil habitantes, ilhas desabitadas e um turismo de luxo para milionários.
Cabo Verde tem mais de meio milhão de habitantes, várias ilhas habitadas e um modelo turístico muito mais inclusivo e social.
O turismo cabo-verdiano gera emprego, rendimento e pequenas empresas.
Enquanto lá o turismo é exclusivo, aqui ele é transformador.
Podemos e devemos melhorar, sim mas comparar modelos tão distintos é academicamente preguiçoso e politicamente desonesto.
As infraestruturas são pontes, não dívidas
Dizer que os investimentos em portos e aeroportos foram um “quebra-cabeças” é não entender o que significa governar um arquipélago.
Cada porto e aeroporto é uma ponte sobre o mar, um gesto de soberania, de coesão nacional e de desenvolvimento.
O desafio agora é rentabilizar e integrar esses investimentos não desvalorizá-los com frases fáceis.
A democracia cabo-verdiana não precisa ser “africanizada”
A nossa democracia é africana.
É também moderna, constitucional e legítima.
Cabo Verde tem alternância de poder, liberdade de imprensa e instituições que funcionam.
É um dos poucos países africanos onde o voto decide, e o poder muda em paz.
Não precisamos de “reinventar” a democracia precisamos apenas de aperfeiçoá-la e aproximá-la das pessoas, sobretudo dos jovens.
Os jovens não rejeitam a democracia querem resultados
Os jovens cabo-verdianos não estão descrentes.Estão exigentes.
Querem ver a política ligada ao emprego, à habitação, à inovação.
Querem líderes que façam, não que apenas falem.
E essa exigência é sinal de maturidade democrática, não de rejeição do sistema.
Cabo Verde é o contrário do fatalismo
Há quem tente enquadrar Cabo Verde num discurso de “pós-colonialismo resignado”, como se ainda vivêssemos à sombra de complexos históricos.
Mas a verdade é outra: Cabo Verde é uma história de superação.
Sem petróleo, sem minérios, sem água e sem vizinhos ricos, construímos um país estável, com moeda forte, paz social e instituições respeitadas.
A nossa elite não é “capataz do colonialismo”: é filha do conhecimento, da escola pública e do mérito.
Cabo Verde não é um país reativo.
É um país que reage para continuar de pé e, em África, isso é sinónimo de força, não de fraqueza.
Antes de nos explicarem África com citações de Amílcar Cabral, talvez seja bom lembrar que Cabral acreditava no pensamento próprio.
E o pensamento próprio de Cabo Verde é simples: trabalhar, crescer e transformar com liberdade, dignidade e identidade.
Debater é saudável. Desmerecer, não.
Cabo Verde continua a ser uma referência africana e quem olha de fora deve ter a humildade de reconhecer isso.
Viva Cabo Verde



Também ouvi a intervenção deste economista , que sempre esteve ligado a organizações internacionais ( ou estou enganado? desempenhou cargos relevantes no país natal, a Guiné ? Não sei.)A verdade é que ele tornou-se conhecido por pertencer à ONU e outras organizações do sistema. Pode conhecer Cabo Verde a nível de consultor o que diferente de quem conhece o país, vivendo o quotidiano e com os pés no chão. Para ser exaustivo, ele faz críticas duras e nunca apresenta uma alternativa à política actual de desenvolvimento. Os nossos dirigentes possuem a formação que têm, mas uma coisa é certa. Conhecem o país, nas suas potencialidades e nas suas carências. Decidem mal, algumas vezes, sim. Mas, no cômputo geral, acertam mais do que falham. Ora isto é positivo. A Guiné Bissau bem precisa de conselhos.
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