Talvez tenhamos estado errados. Talvez, em certa medida, tenhamos feito uma leitura equivocada da história – sobretudo da história de África. Nós, caboverdeanos, seguramente, embora com algum atraso, optámos pela vida em liberdade e democracia. Mas foi a nossa escolha. Uma decisão tomada pelo povo livre destas ilhas. E sabemos que nem sempre, aqui, foi assim.
Também sabemos que houve caboverdeanos que lutaram nas matas da Guiné-Bissau, seguindo a doutrina e escola de Amílcar Cabral, e que durante muito tempo não acompanharam a opção do povo das ilhas. Isto é facto. Mas nós quisemos seguir a nossa realidade, seguimos a nossa cultura, e isso permitiu-nos assumir a escolha que fizemos: livre, democrática e pacífica.
Mas… quem nos garante que a nossa escolha teria de ser também a escolha do continente africano? Talvez neste ponto sejamos diferentes. Com certeza que os povos de África não tenham que seguir os nossos caminhos nem copiar as nossas opções culturais. E não têm mesmo!
A nossa cultura, forjada no bem-aventurado cruzamento de povos africanos e europeus é a matriz da identidade que Deus nos deu. Por isso, seria um atrevimento querer impor aos outros aquilo que é nosso.
Deixemos a África em paz!
Deixemos a Guiné-Bissau em paz!
Apesar de laços históricos e vidas entrelaçadas, nada temos a impor aos povos africanos, e em particular ao povo guineense.
Podemos compreender o ideal de quem, no passado, sonhou com a unidade entre Guiné-Bissau e Cabo Verde. Mas isso acabou – e acabou porque nunca poderia ter sido. Em vez de sonhos continentais, deveríamos estar a promover e a reforçar a unidade das nossas ilhas e do nosso povo.
Assuntos não nos faltam. Problemas também não. Temos muito para cuidar das nossas vidas e deixar que cada povo cuide das suas vidas. O nosso dever é apenas respeitar a África e as decisões africanas. Nada mais. O grande contributo que podemos dar, neste quadro, é respeitar a liberdade dos outros povos. Mesmo que não concordemos com as suas opções e escolhas de regimes.
Se um dia eles nos pedirem uma flor dos nossos jardins, ah aí, sim, dar-lha-emos com amor, amizade e solidariedade. Mas, na minha opinião, nem o primeiro-ministro nem o Presidente da República de Cabo Verde, nem ninguém têm o direito de sequer sugerir qualquer visão ou caminhos à Guiné-Bissau ou aos povos de África.
É preciso entender-se a que liberdade e democracia não são a escolha universal. A história já o demonstrou, com total clareza.


