A China iniciou uma nova ligação regular de transporte de contentores entre a Ásia e a Europa através do Ártico, criando uma alternativa às tradicionais rotas pelo Canal de Suez. A chamada “Rota da Seda do Gelo” reduz significativamente o tempo de viagem e poderá alterar, a médio prazo, os fluxos do comércio marítimo mundial
A China deu um novo passo na expansão da sua presença no transporte marítimo internacional com o lançamento, em 15 de agosto, do primeiro serviço regular de contentores através da Rota Marítima do Norte, ao longo da costa russa do Ártico.
Operado pela companhia chinesa Sea Legend, o serviço liga o porto de Ningbo, no leste da China, ao porto britânico de Felixstowe, atravessando o Ártico. A rota, denominada “Ice Silk Road” (Rota da Seda do Gelo), poderá reduzir para cerca de 18 dias uma viagem que pelas rotas tradicionais pode ultrapassar os 40 dias.
A abertura desta ligação ocorre num momento em que conflitos e problemas de segurança têm afetado importantes corredores marítimos, sobretudo no Mar Vermelho e no estreito de Bab al-Mandeb. A alternativa pelo Ártico surge, assim, como uma possibilidade para reduzir a exposição dos operadores a alguns dos principais pontos de estrangulamento do comércio mundial.
A nova rota é também consequência do recuo do gelo marítimo no Ártico, associado às alterações climáticas, embora continue limitada por condições meteorológicas, custos de seguro, necessidade de apoio especializado e pela dependência da infraestrutura e autorização russas. Por enquanto, especialistas consideram que a rota não está em condições de substituir o Canal de Suez em escala global.
Impacto estratégico para Cabo Verde
Embora a nova rota esteja geograficamente distante de Cabo Verde, o seu desenvolvimento merece atenção de um país que procura reforçar a sua posição como plataforma marítima e logística no Atlântico.
Uma eventual redistribuição dos grandes fluxos comerciais entre a Ásia e a Europa poderá alterar, no futuro, a importância relativa de portos, corredores marítimos e centros de transbordo. Para Cabo Verde, isso reforça a necessidade de acompanhar a transformação das rotas globais e de investir na competitividade dos seus portos e serviços marítimos.
A “Rota da Seda do Gelo” representa, por isso, mais do que uma nova ligação entre a China e a Europa: é um sinal da reconfiguração geopolítica e logística dos oceanos, impulsionada simultaneamente pelas tensões internacionais, pela procura de novas rotas comerciais e pelas alterações climáticas.

