[1] Depois da abolição da escravatura, em 1868, o povo cabo-verdiano já estava habituado a levar com “dedos nos olhos”. E, convenhamos, nem precisou de esperar tanto: o primeiro grande momento foi a migração forçada para São Tomé, motivada pelas fomes. Pela sobrevivência, é claro, [leba un dedu na odju na meiu di fomi era minor di nos problema] — muitos preferiram trocar a penúria e a degradação em Cabo Verde por São Tomé. Já o segundo momento, bem depois da Independência, veio com o programa Casa para Todos, quando o país já não sofria de carestia extrema — era só um caso de polícia que, por sorte ― de quem tem costas largas, não terminou em prisões, pamodi Kau Berdi e más sábi ki Angola.
[2] Chegamos, então, à segunda dedada nos olhos, em 2010. O Governo do PAICV, sempre criativo, resolveu contrair 200 milhões de euros junto da Caixa Geral de Depósitos, banco português, para construir de 8.000 habitações sociais — prometendo, como quem diz, “resolver o défice habitacional”. No papel, o programa parecia outra coisa [un bon pon ku dosi di Celeste na Liceu Domingos Ramos]: o Governo, através do IFH, planeou três modelos de habitação — Classe A, para venda a preços acessíveis (ou quase mágicos) para os pobres, e Classes B e C, para quem ainda tinha algum rendimento.
[3] Mas a realidade em 2016, nem sequer 2.500 casas tinham sido concluídas — para ser mais preciso, 2.188 dos 8000 casas tinham sidos concluídas. Outras 3.822 estavam na fase maravilhosa do “início da construção” ou simplesmente inacabadas. Segundo o próprio PAICV, o IFH já havia usado 159 milhões de euros, sem contar com mais 20 milhões de dívidas aos empreiteiros. Resultado? 179 milhões de euros consumidos em puro espetáculo de eficiência. O programa Casa para Todos tornou-se, sem dúvida, a maior mamadura que o país já viu — desde abolição da escravatura — num negócio que representava cerca de 14,5% do PIB.
[4] Em 2016, o Governo de Ulisses Correia e Silva podia, com todo o bom senso, ter olhado para as 3.000 casas inacabadas do PAICV e dito: “Pronto, deixamos como está, ninguém morrerá de curiosidade”. Ter feito isto, seria um ato tresloucado um crime de lesa-pátria com direito a aplausos irónicos da história.
[5] Ao longo de dez anos, o Governo de Ulisses não só concluiu as 3.000 habitações herdadas, como ainda teve a ousadia de, sem contrair outro empréstimo de 200 milhões de euros, construir mais de 1.500 casas sociais, distribuídas por todo o país. Moral da história! Em dez anos, este Governo fez mais habitação social do que qualquer outro, em qualquer período, e sem precisar de um cheque de 200 milhões do banco português para impressionar ninguém e levar o país para a má vida.
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1. Durante o encontro, que terá lugar na sala de reuniões da CCISS, o Governo pretende socializar e partilhar com os referidos operadores aspectos relativos ao Programa Casa para Todos, a regulamentação relativa aos programas de Habitação de Interesse Social, e os Sub-programas HabitarCV e ProHabitar que prevêem a construção de cerca de 8 mil novas habitações no âmbito da Linha de Crédito que Portugal disponibilizou a Cabo Verde, no valor de 200 milhões de euros. Fonte: https://www.governo.cv/governo-apresenta-linha-de-credito-a-habitacao-aos-operadores-da-area-construcao-civil/https://www.governo.cv/governo-apresenta-linha-de-credito-a-habitacao-aos-operadores-da-area-construcao-civil/
2. “Temos um investimento global de mais de 177 milhões de euros, mais de 19 milhões de contos cabo-verdianos, que estão a ser investidos. Estão a ser construídas 6010 casas, dessas 2188 já foram recepcionadas, 3822 estão a ser concluídas…” Fonte: https://expressodasilhas.cv/economia/2016/01/31/paulo-soares-numa-segunda-fase-o-casa-para-todos-vai-abrir-se-aos-privados/47433https://expressodasilhas.cv/economia/2016/01/31/paulo-soares-numa-segunda-fase-o-casa-para-todos-vai-abrir-se-aos-privados/47433


