Conviva mais com os pobres para teres mais informação da sua vida

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Talvez o problema não seja a falta de políticas públicas, mas sim a falta de convivência com quem realmente precisa delas — e a dificuldade de enxergar além da bolha social que nos cerca

Aqui na Tapadinha, a vida dos humildes ligeiros — essa nova espécie de patriotismo saloio — é uma correria. Entre um chazinho no Seven, na Kebra Kanela, e um prato orgânico de quem tem opções para comer, é mesmo difícil acompanhar o que acontece fora do feed das redes sociais. Lá fora, no mundo dos humildes de verdade, muitas batalhas silenciosas e pequenas conquistas têm sido vencidas, e essas vitórias não são quantificadas; até parecem um universo paralelo para muita gente.

Tanto que fiquei surpreso! Só agora alguns “humildes de etiqueta” descobriram que, desde 2021, em Cabo Verde, a Formação Profissional é totalmente gratuita para as famílias inscritas no Cadastro Social de Nível 1 e 2.

Sim, gratuita. De graça. Sem custos. Zero, tipo “mô na bolsu” das rodadas de beer pagas pelo amigo pagador. Para tu que só queres tirar fotografia de pobres para postar no Facebook, a gratuitidade da Formação Profissional não é pouca coisa: essa política pública tem como objetivo principal reduzir as desigualdades sociais, combater o desemprego juvenil e preparar jovens e adultos para o mercado de trabalho, oferecendo uma verdadeira porta de entrada para a autonomia e a dignidade.

Esse benefício faz parte da política de inclusão social e promoção do emprego jovem do Governo de Cabo Verde, com implementação pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), em parceria com centros públicos e privados em todas as ilhas. De acordo com dados do IEFP, entre 2021 e 2023, mais de 8.000 jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social foram beneficiados por programas de formação profissional financiados pelo Estado — sobretudo nas áreas de hotelaria, construção civil, eletricidade, TICs e cuidados sociais — o que aumenta significativamente as chances de inserção no mercado formal de trabalho.

Enquanto milhares de cabo-verdianos em situação de vulnerabilidade aproveitam essa oportunidade para adquirir competências, melhorar suas condições de vida e entrar no mercado de trabalho com mais dignidade, ainda há quem repita que “ninguém faz nada pelos pobres”. Talvez o problema não seja a falta de políticas públicas, mas sim a falta de convivência com quem realmente precisa delas — e a dificuldade de enxergar além da bolha social que nos cerca.

Fica a dica: antes de reclamar da falta de oportunidades para os outros, talvez seja bom conhecer os outros. Pode ser difícil — exige desligar o ar condicionado do carro e, veja só, ir ter com os pobres.