Covid. 9 coisas que a ciência não sabia e aprendeu durante a pandemia

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Você se lembra de quando limpava cada item da compra do supermercado (e até as sacolas de plástico)? Ou de quando começaram a aparecer as primeiras máscaras caseiras? E a época em que a cloroquina era encarada como um tratamento promissor contra a Covid-19?

Pois é, o conhecimento evolui constantemente, e as recomendações que valiam ontem podem deixar de fazer sentido hoje ou amanhã. Durante uma pandemia, esse avanço é ainda mais veloz. Portanto, ficar atento às diretrizes e consensos entre especialistas pode ser, literalmente, uma questão de vida ou morte.

Desde fevereiro de 2020, quando os casos de covid-19 começaram a se espalhar pelo mundo, as recomendações de prevenção, diagnóstico e tratamento da doença se transformaram radicalmente.

Chegou a hora de conhecer melhor como essas mudanças aconteceram — e entender como elas nos trazem mais segurança e certeza de que, um dia, essa crise sanitária vai passar.

1. As máscaras têm poder
Durante boa parte do primeiro semestre de 2020, autoridades e instituições públicas como a Organização Mundial da Saúde e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos foram unânimes em afirmar que as máscaras só deveriam ser usadas por médicos, enfermeiros e profissionais da linha de frente ou indivíduos com suspeita e diagnóstico de covid-19. Pois bem essa prática veio mudar com o tempo.

Com o avançar da pandemia e com mais conhecimento da doença a máscara veio a ser alargado para todos, e obrigatório. Agora com a vacinação alguns países estão a levantar a obrigatoriedade, mas veio a se mostrar que a máscara é um meio importante no combate à infeção pelo vírus SARS-CoV-2.

2. Desinfetar não é tão importante assim
Uma “moda” que marcou os primeiros meses da pandemia foi a limpeza constante das mãos e de superfícies, corrimões, maçanetas, objetos de uso pessoal e compras de supermercado. Itens de limpeza, como o álcool 70%, o álcool em gel, o desinfetante e a água sanitária tiveram um crescimento significativo. Entretanto, com o tempo, essa ideia perdeu muita força, conforme se observou a relevância dos aerossóis na transmissão do coronavírus.

A gotículas de saliva com coronavírus não necessariamente se depositam nas superfícies, mas ficam pairando no ar e podem ser aspiradas, mas que fique claro: a higiene das mãos e do ambiente é sempre uma atitude bem-vinda, inclusive para prevenir outras doenças infeciosas.

3. O ar precisa circular
Um trabalho publicado em maio de 2020 foi decisivo para que a ciência entendesse melhor a dinâmica de transmissão do coronavírus. Os especialistas do condado de Skagit, em Washington, nos Estados Unidos, relataram o caso dos cidadãos que participavam de um coral, que se reunia periodicamente para praticar o canto.

No dia 17 de março de 2020, 61 integrantes do grupo se reuniram para um ensaio numa sala fechada. Detalhe importante: uma pessoa estava infetada com o coronavírus.
O resultado disso foi que, alguns dias depois, 52 tinham suspeita ou covid-19 confirmada, o que representa 87% de todos os presentes.

Foi através deste trabalho americano e de outras investigações publicadas na sequência que foi possível entender a importância de manter as janelas abertas e o ambiente arejado — ou, de preferência, realizar atividades ao ar livre.

4. Só medir febre não adianta
Outro “protocolo” clássico desde o início da pandemia envolve os termômetros: um funcionário era designado para ficar na frente de estabelecimentos comerciais para medir a temperatura das pessoas que passavam por ali. No começo, aliás, a medição era feita na testa, mas uma notícia falsa que circulou por redes sociais e WhatsApp apontava que os “raios infravermelho” do aparelho podiam mexer com o cérebro. Isso fez com que a temperatura fosse checada no pulso.

O problema é que essa estratégia não faz sentido e pode deixar escapar muita gente com covid-19.

5. A doença vai muito além do sistema respiratório
Parecia simples: o coronavírus invade o organismo através das células da superfície dos olhos, do nariz ou da boca. Com o passar do tempo, ele ganha terreno e vai parar nas vias aéreas superiores (que se estendem até a região da garganta), onde dão os sintomas clássicos de tosse seca, febre e cansaço.

Nos casos mais graves, os pulmões são tomados (o que ocasiona a falta de ar), e isso exige tratamentos mais intensivos e há risco de morte.

A prática, porém, revelou que essa trajetória viral é muito mais complexa do que o esperado. Se anteriormente se pensava se tratar de uma doença pulmonar, com o tempo essa ideia deixou de existir.

Percebeu-se então que não se estava lidando com uma doença pulmonar, mas, sim, com uma enfermidade do endotélio, que é uma camada de células que reveste o interior de nossos vasos sanguíneos. Com isso, apesar do foco maior nos pulmões, passou-se a entender que Covid-19 também poderia acometer os intestinos, o coração, o sistema circulatório, os rins, o cérebro, entre outros.

6. A surpresa da covid longa
E há mais um ingrediente fundamental nessa história. Muitas das doenças infeciosas são autolimitadas. Em outras palavras, a pessoa contrai o vírus, a bactéria ou o fungo, desenvolve os sintomas e, após alguns dias, o quadro melhora ou piora de vez. O final dessa história é a cura ou a morte.

Esse é o rito que sucede na maioria das vezes após o resfriado, a gripe, o ebola… Mas a Covid-19 mostrou ser muito mais complexa e há muitas pessoas que seguem apresentando incômodos meses após a infeção inicial.

Para piorar, a diversidade desses desdobramentos é algo que intriga médicos e cientistas: um artigo da Universidade College London, no Reino Unido, publicado em julho de 2021, chegou a listar 200 possíveis sintomas diferentes da Covid longa.

Alguns afetam o cérebro e podem estar por trás de problemas de memória e raciocínio. Outros prejudicam o ciclo menstrual das mulheres ou a capacidade de ereção dos homens. Há ainda aqueles que causam palpitações no coração ou deixam a visão borrada.

7. Testes devem ser usados com inteligência
A princípio, o raciocínio até fazia sentido: por que não fazer exames periódicos em toda a população, de modo a encontrar os casos assintomáticos ou logo antes de os primeiros sinais da doença aparecerem?

A lógica, porém, esbarra em questões práticas. Fazer programas de testagem amplos sem nenhum critério é algo difícil de se manter no longo prazo, por falta de equipamentos e recursos humanos, e pode levar ao desperdício de insumos valiosos.

É por isso que muitos especialistas defendem o uso desses exames de forma otimizada, com o objetivo de reduzir a transmissão do coronavírus na comunidade — foi essa a estratégia adotada por países como Austrália e Nova Zelândia, que alcançaram os ótimos resultados na condução da pandemia.

8. Tratamento precoce (ainda) não teve sucesso
O sonho de todo médico que atua na linha de frente era ter um remédio que pudesse ser prescrito logo no início dos sintomas para curar de vez a covid-19. E vários medicamentos foram testados nesse meio tempo, mas nenhum mostrou um bom resultado até o momento.

Foi o caso da hidroxicloroquina, da ivermectina, da azitromicina, da nitazoxanida e vários outros integrantes do “kit covid”, que se mostraram ineficazes ou até prejudiciais (quando os efeitos colaterais superam qualquer benefício).

9. O vírus tem múltiplas facetas, mas pode ser derrotado
Por último, o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, chama a atenção para o surgimento de múltiplas variantes do Sars-CoV-2, o coronavírus responsável pela pandemia atual. “Isso não era algo que esperávamos lá no início”, avalia.

“Não observamos esse mesmo comportamento nos surtos de Sars [Síndrome Respiratória Aguda Grave], em 2003, e de Mers [Síndrome Respiratória do Oriente Médio], em 2011, que também foram causados por tipos de coronavírus”, diz.

O aparecimento das novas linhagens, como a Alfa, a Beta, a Gama e a Delta, explica o pesquisador, tem a ver com a rápida disseminação do vírus por todo o planeta, pelo que no monento a vacinação é o único meio de derrotar o vírus.

“A vacinação é o meio mais seguro e eficaz para sairmos dessa e conseguirmos retomar nossa vida próximo ao que vivíamos lá em 2019”, finaliza.

Com BBC NEWS