Cardeal português defende limites à IA, reforço da educação e valorização da dimensão espiritual num mundo marcado pela polarização e pelo excesso de informação
O cardeal português Dom José Tolentino Mendonça defendeu que a inteligência artificial (IA) deve permanecer ao serviço da pessoa humana e alertou para os riscos de uma sociedade que permita que a tecnologia dite os rumos da transformação social sem uma orientação ética e humanista. Em entrevista à Rádio Renascença, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano afirmou que “não pode ser a inteligência artificial a guiar esta revolução, mas tem de ser o pensamento humano”.
As declarações surgem na sequência da publicação da encíclica Magnifica Humanitas, a primeira do Papa Leão XIV, que aborda os desafios éticos colocados pela inteligência artificial. Para Dom Tolentino Mendonça, o documento representa um “texto histórico” e um importante exercício de consciencialização global.
“Vivemos numa sociedade de informação, mas pouco informada”, afirmou o cardeal, sublinhando que a rapidez das mudanças tecnológicas exige reflexão crítica e participação democrática. Segundo o responsável, o maior perigo reside em transformar a IA de instrumento em substituto da ação e do discernimento humanos.
O também poeta destacou a necessidade de proteger a liberdade humana, especialmente entre crianças e adolescentes, defendendo limites à exposição precoce às redes sociais e às tecnologias digitais. “Algumas coisas são possíveis, mas não são boas”, observou, alertando que a ausência de regras e de uma visão orientada pelo bem comum pode conduzir a uma “involução” social, marcada por desigualdades, exclusão e sofrimento.
Educação e trabalho no centro das preocupações
Na entrevista, o cardeal reconheceu que a inteligência artificial terá um impacto profundo no mercado laboral, provocando o desaparecimento de algumas profissões e o surgimento de novas atividades. Contudo, insistiu que a transição deve ser acompanhada por políticas públicas e mecanismos sociais capazes de minimizar os efeitos negativos sobre os trabalhadores.
Questionado sobre o pavilhão do Vaticano na Bienal de Veneza, dedicado ao tema do silêncio, o cardeal explicou que a iniciativa procura responder a um mundo cada vez mais marcado pela polarização, pelo ressentimento e pela exaltação de interesses particulares.
“Vivemos uma espécie de cacofonia”, disse. Segundo observou, é urgente recuperar os recursos espirituais, entre eles o silêncio, a reflexão e a escuta interior, como formas de fortalecer o discernimento e promover o diálogo.
A propósito das polémicas em torno da participação da Rússia e de Israel na Bienal de Veneza, Dom Tolentino considerou que as tensões observadas no evento refletem as divisões e os conflitos que atravessam atualmente a sociedade internacional.
Uma mensagem de esperança
Apesar do contexto global marcado por guerras, instabilidade e polarização, o cardeal manifestou uma visão otimista. “Temos de ter um olhar de esperança”, afirmou, defendendo uma leitura cristã da realidade baseada na ideia de redenção e renovação.
Na entrevista, o cardeal português falou ainda da importância da poesia na sua vida e no seu trabalho no Vaticano, revelando que a escuta continua a ser a principal fonte da sua inspiração literária.


