Dor e esperança em terra e mar

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Em memória de Aguibou Condé, maliano, sobrevivente da piroga que chegou à costa em São Nicolau, que infelizmente veio a falecer.

Recentemente, nas visitas que fiz ao sobrevivente uma piroga de migrantes, que, infelizmente, faleceu. Ele partilhou palavras que ecoam uma dor profunda: “Je suis désolé” ou “Je suis vraiment fatigué”, que traduzem a tristeza e o extremo cansaço. Essas palavras fizeram-me refletir sobre tantos outros que, à deriva no Atlântico, buscam uma vida melhor.

Em tempos em que a dor e o sofrimento parecem dominar a alma humana, é fundamental reconhecer o lamento de muitos que se encontram perdidos, como navegantes solitários em busca de um lugar seguro. Eles carregam a pesada bagagem de um povo marcado pela adversidade, tragado por homens autoritários, sedentos de poder e movidos por ambições e ódios profundos, transformando as suas terras em ambientes hostis.

As palavras de Aguibou Condé ressoam como um desespero que pesa sobre o seu coração, refletindo o que tantos outros sentem, aqueles que acabam por afundar no oceano. Diante da dura escolha entre tudo e nada, clamam num mundo que parece surdo e insensível ao seu grito.

Como não se sentir tomado pela tristeza e pela revolta diante de tal realidade? A sociedade não deveria ser assim; infelizmente, muitos homens e mulheres esqueceram o amor que deveria unirnos e a máxima de Jesus: “Amar o próximo como a si mesmo”.

Quantos mais, como Aguibou, sucumbirão às amarguras da luta diária pela sobrevivência? Quantos se lançarão ao mar, levando consigo o medo como um fardo pesado? Até quando o vento trará lamentos de despedida e as ondas contarão histórias de sonhos afogados?

Isso é um chamado à ação: que Deus levante e ajude os “Aguibous” que vão do Mali à Somália e da Somália à Namíbia. Que a África como um todo encontre a prosperidade que tanto merece, e que os seus filhos voltem a sorrir sob o sol do seu lar, sem precisar buscar a vida nas incertezas das águas.

Que o chão africano, essa terra quente e firme, acolha sempre os seus filhos com generosidade. Que o futuro renasça no coração de uma terra resiliente, onde o oceano, em vez de ser uma fronteira, se torne um caminho de reencontro e esperança.

Que a nossa morabeza continue sempre fortalecida e de braços abertos, para acolher e cuidar dos Aguibous que hão de chegar às nossas ilhas.

“O Senhor é bom, um refúgio em tempos de angústia; ele protege os que nele confiam.” Naum 1:7