E (quase) tudo a chuva (que deveria ser amiga) levou

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Por volta das 2h30 da madrugada de segunda-feira, 11 de agosto, já acordados desde a 1h30, fomos surpreendidos por um espetáculo assustador da natureza. Sobre a ilha de São Vicente, caíam chuvas intensas, trovões ensurdecedores e relâmpagos que, por instantes, substituíram a luz que a eletricidade já não nos dava. E ainda bem que a energia foi cortada, porque, com tanta água a cair, o risco seria ainda maior para a vida humana. Era como se um imenso tanque tivesse sido aberto e despejado sobre nós, de uma só vez, sem aviso.

Enquanto tentávamos conter a água que entrava por debaixo da porta, houve um momento em que tudo mudou. Do lado de fora, ouvimos um estrondo. Era a força da água, que já não batia, mas arrombava. A porta cedeu. A água entrou com toda a sua autoridade, sem pedir licença, empurrando-nos com o peso da sua fúria.

Num instante, tudo começou a boiar. Objetos, móveis e outros pertences. E nós, ali, impotentes, apenas observávamos, incrédulos. Não havia como impedir. Só Deus, mesmo, para acudir numa hora dessas.

Foi uma noite inteira em claro, não só para nós, mas para muitas outras famílias vizinhas. Valeu a entreajuda. Pessoas, muitas anónimas, apareceram e ajudaram. Limpamos o que deu, socorremos quem podíamos. O djunta-mon voltou a provar que é real e necessário, sobretudo num momento como aquele.

Ao amanhecer, todos aguardavam o dia com um único objetivo: ver onde colocar os pés. Era o caos. Um cenário verdadeiramente desolador.

E (quase) tudo a chuva (que deveria ser amiga) levou.

Famílias que já tinham pouco, perderam o pouco que lhes restava. E agora? Agora é hora de recomeçar. Não sabemos como nem por onde, mas sabemos que é preciso levantar e seguir. Para muitos, tudo é necessário. Por isso, é hora de nos unirmos, outra vez.

O momento é difícil. E é urgente apoiar, sobretudo os que mais precisam. Este é o tempo de estarmos presentes e de ajudar a reconstruir vidas que as chuvas suspenderam.

Depois de tudo o que vimos e vivemos, sentimos o dever de agir. Por isso, lanço este apelo a todos os meus amigos, em Cabo Verde e na diáspora: ajudem-nos a ajudar.

Muitas famílias ao nosso redor foram severamente afetadas. Precisam de quase tudo, desde roupas, utensílios de cozinha, alimentos, fogões, colchões, materiais de higiene, o básico para o dia a dia.

Qualquer apoio é bem-vindo. O que cada um puder doar, por menor que pareça, fará toda a diferença.

Agradecemos, desde já, por toda a solidariedade. Os donativos serão entregues a um grupo de famílias de uma das zonas mais afetadas da ilha de São Vicente. “O pouco de cada um, quando dado com amor, torna-se muito”, já dizia alguém.

Muito obrigado. Que Deus continue a nos abençoar e a proteger a todos.