Os autoproclamados herdeiros do pensamento de Cabral, para já um paradoxo complicado, porque as produções filosóficas, científicas ou políticas dos grandes pensadores e cientistas são universais e nunca propriedades de um grupo político, social ou econômico.
Nenhum grupo político francês se autoproclamou herdeiro do pensamento de Alex de Tocqueville!
Voltando ao cerne da questão: enquanto os herdeiros do chamado pensamento de Cabral não perceberem que sempre que tirem Amílcar Cabral do seu contexto histórico preciso como líder nacionalista e revolucionário da luta armada na Guiné Bissau para a independência da Guiné e Cabo Verde, contribuem para o aprofundamento da clivagem não em relação a Amílcar Cabral, mas sim sobre o que falou e escreveu, e, principalmente, sobre o que escreveram sobre ele no contexto da guerra com a grande participação do angolano Mario de Andrade.
Há um facto relevante que nenhum argumento, propaganda ou livros podem contrariar:
Na base do chamado pensamento de Cabral, fundado na teoria marxista e leninista, conhecido com o nome de democracia nacional revolucionária, depois da libertação da dominação colonial fascista, os seguidores de Cabral implantaram a ditadura do Partido Único, proibindo os cabo-verdianos de usufruírem dos direitos políticos e civis básicos durante os longos 15 anos da ditadura.
Com base na democracia nacional revolucionária, suporte teórico do Regime, os seguidores e mais tarde os herdeiros de Cabral fizeram a mesma coisa que o regime de Partido Único de Salazar nos impôs enquanto colônia e província de Portugal.
Um outro facto irrefutável e inapagável, por mais que se queira subalternizar ou apagar a luta pela liberdade, democracia e Estado de direito feita triunfalmente pelos cabo-verdianos no Arquipélago e na diáspora, é a decisão de pôr fim ao regime totalitário de Partido Único, forçando a queda do Artigo 4 da Constituição de 1980 que consagrava o PAICV como partido “dirigente da sociedade e do Estado”. A primeira grande ruptura com o pensamento revolucionário de Cabral!
Os cabo-verdianos rejeitaram em eleições universais, livres, diretas e secretas, a 13 de janeiro de 1991, a democracia nacional e revolucionária. A segunda grande ruptura com o pensamento político revolucionário de Cabral!
Em 1992, 2/3 dos representantes do povo, com a exceção dos Deputados do PAICV, aprovaram a primeira Constituição liberal e democrática de Cabo Verde, que consagrou o Estado constitucional de direito democrático! A ruptura definitiva com o pensamento político revolucionário de Cabral.
E, passamos a viver na II República, numa nova Ordem Política em que o Estado e a sociedade estão submetidos à Constituição e jamais ao pensamento político de um líder partidário ou de um partido político!
O mais surpreendente de todo este processo é que a democracia nacional revolucionária e o implacável regime de Partido Único foram transportados para Cabo Verde depois de terminada a guerra na Guiné Bissau, na sequência do golpe militar de 25 de abril de 1974. Surpreendente porque em Cabo Verde não houve a insurreição armada, portanto a democracia nacional revolucionária foi concebida e aplicada na Guiné Bissau no contexto preciso da guerra!
Aplicada em Cabo Verde, a nova elite política, no conceito da democracia nacional revolucionária, definida como os “melhores filhos” tinha um só propósito: deter o poder político em regime de monopólio infinitamente na certeza de que só ela – a nova elite política- poderia levar Cabo Verde ao desenvolvimento e ao progresso!
A história provou o contrário!
É evidente e bom que Cabral continua a ser estudado assim como Marx continua a ser estudado em várias universidades de renome mundial.
Portanto é uma obsessão continuar com a narrativa de que é preciso “continuar Cabral” quando se sabe que os principais DESCONTINUADORES de Cabral são os seus pares e correligionários.
Nenhumas das “teorias” de Cabral vingaram na Guiné Bissau e em Cabo Verde independentes, a saber:
- O elemento central do Marxismo: o desaparecimento de classes porque a nascente revolução industrial faria emergir o proletariado e o campesinato sob a liderança de partidos revolucionários de vanguarda, condutores das massas e dirigentes da sociedade e do Estado. Amílcar Cabral chamou à tese fundamental de Marx “suicídio de classe”, suicídio da pequena burguesia!
A nova elite política do PAIGC/CV não se transformou em operário, camponês e pequenos comerciantes, e manteve-se no poder porque dominou todos os poderes do Estado (Administração Pública, Tribunais, Polícia e Forças Armadas Revolucionárias do Povo) e os instrumentos de controlo ideológico (polícia política, estruturas do partido, as organizações de massa, a comunicação social do Estado e o sistema educativo).
- A Unidade Guiné-Cabo Verde quebrada pelos ex-colegas guineenses de Cabral. Caiu por terra o Partido binacional com sede em Bissau e o Ramo nacional do PAIGC foi transformado em partido político nacional.
PAICV, resultado de uma cisão violenta, é um equívoco ideológico, que se alimenta do pensamento de Cabral, do qual declarou ser o herdeiro!
Só assim se compreende a razão porque o PAICV vê em tudo que Cabral disse uma teoria e um pensamento que Cabo Verde do Século XXI deve seguir!
Cabo Verde do Século XXI, em paz, livre da dominação estrangeira e integrada na economia global, não tem nada a ver com a democracia nacional revolucionária e, definitavente, as respostas aos seus grandes desafios, designadamente a qualificação dos seus Recursos Humanos, a competitividade internacional da sua economia e a produtividade de trabalho não serão jamais enfrentados e resolvidos com recurso ao pensamento político de Cabral forjado na guerra de libertação na Guiné Bissau e não em Cabo Verde!
Cabral, do meu ponto de vista, deve ser estudado com rigor científico, com mais sofisticação, mas não como instrumento ideológico para impor à sociedade e ao Estado a visão ou a perspectiva política de poder de um determinado grupo político ou grupo social!



Excelente análise Dr Jacinto Santos! Obrigada!
Artigo de abrir os olhos aos cegos.
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