EDITORIAL: Justiça, política e responsabilidade: uma reflexão imprescindível no seio do PAICV 

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A recente constituição como arguido do Presidente da Câmara Municipal da Praia e do PAICV, num momento politicamente sensível e a poucos meses das eleições legislativas, introduz novos desafios ao debate público e à própria vida interna do Partido, coloca o PAICV perante um momento de particular exigência. Independentemente do desfecho judicial – que compete exclusivamente às instâncias judiciais – esta situação projeta implicações políticas e éticas inevitáveis, que não podem ser ignoradas por uma força política com vocação governativa e sentido de Estado.

Desde logo, o PAICV passa a carregar um risco reputacional indireto, ainda que não seja parte direto no processo judicial. Esse risco traduz-se na maior dificuldade em sustentar, com a mesma autoridade moral, discursos centrais da sua identidade política, como os da ética pública, da boa governação e do combate à corrupção. Não por ausência de fundamentos programáticos, mas porque a perceção pública tende a associar processos judiciais individuais ao projeto coletivo do Partido.

Acresce o perigo real de a próxima disputa eleitoral ser progressivamente judicializada, com o debate político a deslocar-se do terreno das ideias e das soluções para o País para o campo dos autos, das diligências e das narrativas de confronto institucional. Esse desvio comporta riscos evidentes: a personalização excessiva da campanha, a diluição do projeto coletivo e, sobretudo, a erosão da imagem histórica do PAICV enquanto “Partido de Estado”, referência de responsabilidade e maturidade democrática.

É neste quadro que se inscrevem algumas das reflexões neste Editorial. Não como julgamento, nem como tomada de posição precipitada, mas como contributo crítico, sereno e construtivo para um debate que o Partido e a Sociedade Cabo-verdiana não podem adiar.

O PAICV aproxima-se de um novo ciclo eleitoral num contexto social exigente, marcado por um natural desgaste governativo, frustrações acumuladas e uma clara expectativa de mudança.

O Partido surge, legitimamente, como alternativa para muitos Cabo-verdianos. Esse é um ativo político real, construído tanto a partir da avaliação crítica do desempenho das políticas do Governo como da memória histórica do Partido enquanto força de Estado, de responsabilidade e de visão estratégica.

É neste contexto que emerge, com elevado impacto político, o processo judicial envolvendo Francisco Carvalho. A pergunta que se impõe não é simples: estamos perante um caso de politização da Justiça ou de judicialização da política?

A presunção de inocência é um pilar do Estado de direito e não é negociável. Ninguém deve ser condenado na praça pública nem afastado da vida política apenas por ser arguido. Mas seria igualmente errado confundir presunção de inocência com suspensão do juízo político e ético.

À luz dos fatos conhecidos, não há base sólida para afirmar que a Justiça esteja a ser instrumentalizada politicamente. As investigações decorrem no quadro institucional normal. O argumento da perseguição política pode mobilizar setores populares, mas não pode substituir a análise racional nem servir como único eixo de leitura da realidade.

O que se observa é, muito provavelmente, um fenómeno de judicialização de um percurso político fortemente exposto. E esse fenómeno coloca desafios sérios aos Partidos que aspiram a governar. Quando a ação política se cruza diretamente com investigações por crimes graves contra o Estado, o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser profundamente político.

O PAICV não pode permitir que o debate eleitoral seja capturado por um processo judicial individual. Um Partido com a sua história não pode reduzir o seu projeto coletivo à defesa permanente de um dirigente, por mais relevante que seja. Não se trata de abandono nem de julgamento antecipado; trata-se de preservação institucional.

A democracia vive de legalidade, mas também de legitimidade. E a legitimidade política exige padrões mais elevados do que o mínimo legal. Quando o espaço público discute mais autos e mandados do que propostas e soluções, algo está profundamente desalinhado, para o Partido e para a democracia.

Esta reflexão torna-se ainda mais exigente quando se coloca a hipótese de uma candidatura ao elevado cargo de Primeiro-Ministro. Aqui, o critério não pode ser o mínimo legal, mas o máximo político e ético. O Primeiro-Ministro não é apenas um líder partidário: é o chefe do Governo, o responsável pela coordenação da Administração Pública e o garante político da legalidade, da probidade e da boa governação. Uma reserva moral, diga-se.

Num Estado democrático em que a transparência é um princípio estruturante, a simples possibilidade de alguém exercer essa função sob o peso de investigações criminais graves levanta questões que não podem ser ignoradas.

Coloca-se, desde logo, um problema de legitimidade ética. Mesmo sem condenação, a acumulação de investigações por crimes contra o Estado, alegações de violação da legalidade administrativa e conflitos com órgãos de fiscalização fragiliza seriamente a autoridade moral necessária para liderar o Governo. A confiança política não se constrói apenas nos tribunais, mas também na perceção pública de integridade e exemplaridade.

Surge ainda um problema de governabilidade, que não pode ser relativizado. Um Primeiro-Ministro arguido governaria sob escrutínio judicial permanente, arrastando o Executivo para uma lógica contínua de defesa política e jurídica, com impactos diretos na estabilidade institucional. Relações com magistraturas, parceiros internacionais e investidores tenderiam a ficar condicionadas por uma incerteza política evitável, num momento em que Cabo Verde precisa de foco, confiança e previsibilidade. Normalizar esta situação significaria baixar o patamar de exigência democrática. Politicamente e eticamente, não é compatível com uma aspiração credível ao cargo de Primeiro-Ministro, ainda que juridicamente possível.

Dizer isto não é fazer o jogo do adversário. Pelo contrário: é assumir que o PAICV deve ser mais exigente consigo próprio do que exige aos outros Partidos. É reconhecer que a sua força histórica sempre residiu na capacidade de colocar o interesse coletivo acima das trajetórias individuais.

Os Partidos erram mais quando evitam enfrentar as suas próprias contradições. Este é um momento que exige coragem: para separar o essencial do acessório, distinguir solidariedade partidária de captura institucional e afirmar que a alternância democrática não pode ser construída sobre ambiguidades éticas evitáveis.

O PAICV tem quadros, história e maturidade suficientes para encontrar soluções responsáveis. Pode fazê-lo sem humilhar ninguém, sem rachas artificiais e sem negar direitos individuais. Mas não pode fazê-lo fingindo que o problema não existe.

No fim, a questão decisiva não é se a Justiça deve atuar – porque deve – nem se os direitos políticos devem ser respeitados – porque são inalienáveis. A questão é outra: que padrões de responsabilidade se querem afirmar para quem aspira a governar Cabo Verde em nome do PAICV?

Responder a essa pergunta com lucidez e coragem será, talvez, a maior prova de maturidade democrática do Partido neste ciclo político.

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito pertinente e oportuno e valido para todos os partidos politicos e politicos que queiram aspirar estar à frente da governação de Cabo Verde. Exigências têm de ser maiores, standands mais elevados. O PAICV está de facto com esta batata quente. Como exigir dos cidadãos comum boa conduta, lisura no seu comportamento perante esta situação? Em Cabo Verde desde o tempo colonial a sociedade exigiu sempre de seus administradores pessoas insuspeitas e não podemos ceder neste aspecto.

  2. Parece que vocês querem dar bons conselhos ao PAICV para poder ultrapassar as suas dificuldades e vencer as eleições! Deixem que PAICV continue com um cego a conduzi-lo. Simplesmente mostrem ao povo da Praia e de Cabo Verde inteiro, que o PAICV não está em condições de governar o país, ao passo que o MpD está bem colocado para continuar a governar.

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