Quem circula hoje por alguns bairros da Capital depara-se com contentores à beira de rebentar e sacos de lixo espalhados pelo chão. A fotografia que publicamos neste editorial não é exceção: é o retrato de um problema que, nos últimos tempos, tem vindo a agravar-se. Há quem diga que normalizar o que prejudica a saúde e a imagem da cidade não resolve nada — apenas adia a solução.
Fica a dúvida sobre o que terá falhado. Estão os camiões em reparação? O número de rotas deixou de acompanhar o crescimento da cidade? Faltam contentores em zonas onde a população aumentou? As respostas importam menos do que a ação: o serviço de recolha precisa voltar a funcionar com a regularidade prometida, antes que mosquitos, ratos e mau cheiro se multipliquem.
O impacto é evidente. Comerciantes perdem clientes que atravessam a rua para fugir ao odor. Famílias fecham janelas, tentando manter o cheiro fora, mesmo que isso signifique trazer o calor para dentro. Quem chega de férias ou com intenção de investir encontra uma capital que parece ter desistido de manter o próprio quintal arrumado.
Se o serviço não responde, o cidadão tem o direito de perguntar — com toda a calma, mas com firmeza — em que ponto o sistema se desajustou e quando será corrigido.
Entretanto, cabe também a cada morador fazer a sua parte: colocar o lixo dentro dos contentores, não largar entulho na via pública, respeitar os horários de recolha — se é que estes existem. Ainda assim, a liderança deste processo cabe, naturalmente, a quem administra os recursos públicos. A cidade precisa de um calendário claro, equipas visíveis na rua e informação acessível sobre falhas e reparações. Mais importante ainda: precisa de resultados visíveis — contentores vazios (não “cheios de alface ou garrafas de Coca-Cola”) e passeios limpos.
A Cidade da Praia cresce, atrai turistas, acolhe conferências e sonha com grandes projetos de inovação. Mas esses objetivos exigem, antes de tudo, o básico: lixo recolhido na hora certa, sem desculpas repetidas. Não se trata de exigir nada extraordinário, apenas de garantir o serviço pelo qual todos já pagamos.
Enquanto esse ciclo de eficácia não se instala, persiste o desconforto: um odor que não se dissipa ao amanhecer e uma pergunta que paira — ainda que sussurrada —: quem vai recolher primeiro: o lixo ou a responsabilidade? Até lá, resta-nos vigiar, reportar e cobrar, com a serenidade de quem sabe que a higiene urbana não é um favor, mas um direito. Porque, em última análise, é no cuidado com as pequenas coisas que uma cidade revela a grandeza dos que a governam — mesmo quando estes preferem manter-se fora do enquadramento.
No fim, manter a cidade limpa é um teste simples de organização e respeito. Um teste que a capital, com recursos e gente capaz, tem todas as condições de passar. Falta apenas que as peças se alinhem e que as promessas saiam do papel para as ruas — antes que a próxima fotografia ou a próxima chuva exponha um problema ainda maior.


