Passam hoje 45 anos sobre os trágicos acontecimentos de 31 de agosto de 1981, em Santo Antão, uma data que permanece inscrita na memória coletiva de Cabo Verde como símbolo de repressão, sofrimento e resistência em defesa da liberdade
Foi a 31 de agosto de 1981 que a contestação à Reforma Agrária, então promovida pelo regime de partido único do PAICV, atingiu o seu momento mais dramático em Santo Antão. Agricultores e outros cidadãos manifestaram o seu descontentamento perante as políticas impostas, num ambiente de crescente tensão entre as comunidades locais e as autoridades.
A resposta das forças do regime foi marcada pela violência. Os confrontos provocaram mortos e feridos, seguindo-se uma vaga de detenções. Dezenas de cidadãos foram presos e várias pessoas sofreram espancamentos, torturas e outras formas de violência durante os interrogatórios e o período de encarceramento.
Entre as vítimas ficou Adriano Santos, morto durante a repressão, cujo nome permanece associado à memória daquele dia. Testemunhos recolhidos ao longo dos anos descrevem ainda famílias desagregadas, propriedades abandonadas e uma comunidade mergulhada no medo.
Os acontecimentos não terminaram naquele 31 de agosto. A repressão prolongou-se nos meses seguintes, com processos em tribunal militar e condenações de cidadãos envolvidos nos protestos. A memória dos acontecimentos permaneceu, contudo, muito para além das prisões e das sentenças.
Quarenta e cinco anos depois, o 31 de agosto continua a ser uma data de memória e reflexão. Recordá-lo significa reconhecer o sofrimento de quem viveu aqueles acontecimentos, homenagear as vítimas e reafirmar o valor da liberdade, dos direitos humanos, da democracia e do Estado de Direito.
Mais do que uma página do passado de Santo Antão, o 31 de agosto constitui uma memória nacional sobre os riscos da intolerância política e da concentração do poder e sobre a necessidade de preservar, em todas as circunstâncias, as liberdades fundamentais.
A memória não apaga a história. E uma democracia madura não teme recordar as suas páginas mais dolorosas.


