Efeméride. Há 87 anos, o Sal levantava voo para uma nova era

15 de agosto de 1939 ficou gravado na história de Cabo Verde como o dia em que um avião italiano aterrou, pela primeira vez, em solo cabo-verdiano, na planície entre Feijoal e Parda, nas proximidades de Pedra de Lume, na ilha do Sal. Aquele momento, aparentemente simples, viria a mudar profundamente o destino da ilha e a abrir uma nova página na história da aviação e do desenvolvimento de Cabo Verde

Há precisamente 87 anos, um Savoia Marchetti SM83, pilotado pelos comandantes Carlo Tonini e António Moscatelli, pousava num aeródromo improvisado na ilha do Sal. A aterragem, realizada no contexto dos preparativos italianos para estabelecer uma ligação aérea entre a Europa e a América do Sul, constituiu a primeira chegada de um avião a solo cabo-verdiano.

O local escolhido situava-se entre Feijoal e Parda, a sul de Pedra de Lume. A escolha do Sal, uma ilha então marcada pela aridez e por uma população relativamente reduzida, não foi casual. A existência das infraestruturas ligadas à exploração e exportação do sal, nomeadamente através da empresa Salins du Cap Vert, facilitava a chegada de materiais e a instalação de uma infraestrutura aeroportuária.

A partir daquele primeiro voo, o horizonte do Sal começou a mudar. Meses depois, avançaram as obras do aeroporto de Espargos, com pista, hangares, oficinas, estação de rádio, serviços meteorológicos, armazéns e outras estruturas necessárias à operação aérea.

Em 15 de dezembro de 1939, o aeroporto recebeu o primeiro voo oficial da LATI – Linhas Aéreas Transcontinentais Italianas, inaugurando a ligação Roma–América do Sul, com escala no Sal.

A aviação acabaria por transformar o Sal numa das principais portas de entrada de Cabo Verde e numa plataforma estratégica no Atlântico. O atual Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, construído inicialmente por iniciativa italiana, viria a assumir um papel determinante na evolução económica e social da ilha e do próprio país. O Governo de Cabo Verde reconhece que a infraestrutura, criada em 1939 para apoiar a rota entre Roma e a América do Sul, esteve na origem de uma transformação profunda da ilha.

Do “ouro branco” às asas do turismo

Antes da aviação, a história económica do Sal estava intimamente ligada ao sal, cuja exploração em Pedra de Lume foi decisiva para a ocupação e o povoamento da ilha. O Instituto do Património Cultural considera a extração do sal um dos principais fatores impulsionadores da ocupação efetiva do território.

Nesse processo destacou-se Manoel António Martins, comerciante e empreendedor originário de Braga, Portugal, chegado a Cabo Verde no final do século XVIII. A exploração das salinas de Pedra de Lume esteve na base do desenvolvimento daquela localidade e, posteriormente, Manoel António Martins teve também um papel central no povoamento de Santa Maria, no sul da ilha, em 1834.

Durante décadas, o sal constituiu a principal riqueza económica do Sal, sendo exportado para diversos mercados. Mas a chegada do avião inaugurou progressivamente uma nova vocação para a ilha: a de plataforma aérea internacional, espaço de circulação de pessoas e, mais tarde, destino turístico de referência. A própria Embaixada de Cabo Verde no Brasil assinala que a ilha permaneceu economicamente ligada à exportação de sal até meados dos anos 1980, enquanto o aeroporto criado em 1939 impulsionou novas dinâmicas demográficas e económicas.

O Sal que hoje conhecemos – turístico, cosmopolita, internacional e ligado aos grandes fluxos aéreos – é, em larga medida, herdeiro daquele momento de 15 de agosto de 1939.
Passados 87 anos, a aterragem daquele primeiro avião pode ser vista como muito mais do que um episódio da história da aviação. Foi o início de uma transformação estrutural que alterou o rumo da ilha e contribuiu para reposicionar Cabo Verde no mapa das ligações atlânticas.

De uma ilha cuja economia dependia sobretudo das salinas de Pedra de Lume e Santa Maria, o Sal tornou-se uma das principais portas de entrada do arquipélago e um dos mais importantes polos turísticos do país.

Em 1939, chegou um avião. Com ele, chegou também uma nova ideia de futuro.
Hoje, 87 anos depois, recordar aquela aterragem é celebrar a capacidade de Cabo Verde de transformar a sua posição geográfica, os seus recursos e os seus desafios em oportunidades.

E se 1939 marcou o início dessa nova era, 2029 será o momento de celebrar os 90 anos de uma aterragem que mudou para sempre o destino do Sal – e deixou uma marca indelével na história de Cabo Verde.

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