Entre a retórica do falhanço e a nostalgia do autoritarismo

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Quando o discurso ignora os factos e a liderança exalta o passado de partido único, algo está errado. Muito errado.

O recente debate sobre o Estado da Nação revelou mais do que divergências partidárias. Revelou uma contradição profunda — e perigosa — no seio do maior partido da oposição. De um lado, discursos que ignoram estatísticas e realidades concretas. Do outro, uma liderança que exibe com orgulho a nostalgia do regime de partido único.

A antiga líder do PAICV e atual deputada Janira Hopffer Almada foi a voz mais estridente da bancada, afirmando que “nada foi feito nos últimos dez anos” e que houve “falhanço total em todas as áreas”. Para isso, descartou completamente os indicadores objetivos: o estatuto de país de rendimento médio alto, os avanços no ensino superior, o crescimento económico, as reformas estruturais e a estabilização institucional reconhecida internacionalmente.

Na mesma linha, o atual líder parlamentar do PAICV repetiu o tom negativo e apocalíptico, como se a governação da última década pudesse ser reduzida a zero — ignorando dados, conquistas e desafios reais. Mais surpreendente ainda foi ouvir a deputada e jornalista Carla Lima invocar, com aparente convicção, a defesa da liberdade de imprensa — integrando um partido cujo líder declara, sem hesitação, ter um “entendimento sólido como aço” do antigo regime de partido único.

Que liberdade é essa que se defende em palavras, mas se relativiza na prática? Que compromisso com o Estado de Direito pode ter um partido cujo projeto político atual oscila entre o populismo catastrofista e a reabilitação simbólica de um passado autoritário?

O líder do PAICV, Francisco Carvalho, não se limitou a relembrar a história: exaltou abertamente o modelo de partido único que vigorou entre 1975 e 1990. Fê-lo com orgulho. E isso não pode ser desvalorizado. Estamos diante de um projeto de poder que não esconde o seu desdém pelo pluralismo democrático. O que está em causa já não é apenas a qualidade da oposição — é a qualidade da alternativa.

É por isso que vozes lúcidas como Casimiro de Pina e Mika Lobo merecem ser destacadas. Ambos têm denunciado, com coragem, a tentativa de reconstrução simbólica de um autoritarismo que tantos sacrifícios custou ao povo cabo-verdiano. Casimiro foi claro: o PAICV apresenta ideias mirabolantes e tem um líder que procura reviver — ainda que noutra escala — o modelo político da Venezuela ou da Coreia do Norte.

Cabo Verde precisa de democracia — não de ambiguidades perigosas. O país merece oposição crítica, sim, mas enraizada nos valores constitucionais. Merece debate político sério, não retóricas catastrofistas. Merece liberdade de imprensa real, não proclamada por conveniência enquanto se convive, confortavelmente, com quem glorifica o controlo ideológico e a censura do passado.

A democracia não é um adereço tático. É uma convicção. E é tempo de todos os democratas, de todas as cores, se afirmarem com clareza. Cabo Verde não voltará para trás. Mas só se os que acreditam na liberdade não cederem ao silêncio.