Pode-se discordar politicamente de Ulisses Correia e Silva.
Aliás, numa democracia saudável, o desacordo é não só legítimo — é necessário.
Mas há uma linha que não deve ser ultrapassada:
a que separa a crítica séria da negação sistemática da realidade.
Ao longo de cerca de uma década de governação, Cabo Verde conheceu transformações relevantes em vários domínios. Não se trata de afirmar que tudo foi perfeito — longe disso. Governar é uma atividade humana, sujeita a erros, decisões discutíveis e contextos adversos. Reconhecer isso é um sinal de maturidade democrática.
Mas também é um facto que o país registou progressos concretos.
A economia cresceu de forma consistente, com vários anos acima do seu potencial. O desemprego atingiu níveis historicamente baixos, ultrapassando largamente as metas inicialmente definidas. As finanças públicas revelaram maior autonomia, com uma parte significativa das despesas a ser financiada por recursos internos.
No plano social, houve reforço de políticas públicas, aumento de salários na função pública, expansão do acesso gratuito ao ensino até ao 12.º ano e aposta clara na formação profissional. Paralelamente, multiplicaram-se iniciativas empresariais, dinamizando a economia e diversificando oportunidades.
Também no combate à pobreza se registaram avanços, com reduções significativas tanto na pobreza extrema como na pobreza absoluta.
Importa ainda sublinhar a aposta estratégica em áreas estruturantes como as energias renováveis e a dessalinização da água, fundamentais para um país com limitações naturais como Cabo Verde.
A nível internacional, o país consolidou a sua imagem como um Estado estável, credível e bem governado, sendo reconhecido por instituições multilaterais e rankings independentes.
Perante este quadro, é legítimo perguntar:
onde estão os indicadores consistentes de degradação estrutural que sustentem o discurso da “catástrofe”?
A crítica política não pode assentar apenas em perceções ou construções narrativas. Deve apoiar-se em factos, em dados verificáveis, em análise séria.
Um dos argumentos mais recorrentes é o de que “o crescimento não chega às pessoas”. Trata-se de uma questão relevante, mas que exige rigor. Quando milhares de cidadãos beneficiam de políticas públicas, programas de formação, estágios, emprego e apoio ao empreendedorismo, torna-se difícil sustentar a ideia de um crescimento desligado da sociedade.
Por outro lado, é inegável que a própria sociedade cabo-verdiana mudou. As novas gerações não procuram apenas emprego — exigem oportunidades, autonomia e realização pessoal. Esse novo paradigma eleva naturalmente o nível de exigência sobre qualquer governação.
O problema surge quando a análise política deixa de ser crítica para se tornar negacionista.
Quando, independentemente dos resultados, se insiste numa narrativa única de fracasso, ignorando dados, indicadores e evidências, estamos perante uma escolha — não de opinião, mas de postura.
Uma democracia forte precisa de oposição.
Mas precisa, acima de tudo, de uma oposição credível, responsável e intelectualmente honesta.
Negar a realidade pode ser politicamente conveniente.
Mas nunca será um serviço ao país.


