Entre o Lixo e a Liderança: Um Desafio de Saúde Pública 

No passado dia 20, o Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva realizou uma visita à comunidade de Fonton, com foco na prevenção e combate ao paludismo e outras doenças transmitidas por mosquitos. Trata-se de uma iniciativa oportuna, de elevada relevância e que deve ser saudada, tendo em conta a importância da saúde pública e a necessidade de preservar a certificação atribuída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que reconhece Cabo Verde como país livre de paludismo, uma distinção que apenas 43 países e uma região em todo o mundo conseguiram alcançar.

Este feito coloca Cabo Verde numa posição privilegiada no cenário internacional, mas também impõe uma responsabilidade acrescida. Não são permitidos retrocessos. E, muito menos, se pode aceitar que a capital do país se transforme numa lixeira a céu aberto.

Tampouco é tolerável que se trate este assunto com leviandade. Romantizar o lixo é grave e revela um nível preocupante de irresponsabilidade institucional.

Lixo não é paisagem urbana

É fundamental recordar que a imagem de um país livre de doenças endémicas é um trunfo estratégico, sobretudo para um destino turístico que se quer seguro, atrativo e de qualidade. O turismo representa uma percentagem significativa do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e é fonte de sustento para milhares de famílias cabo-verdianas. Preservar a saúde pública é, portanto, também preservar a economia nacional.

Neste contexto, reconhece-se no Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva autoridade e legitimidade para liderar este debate. Não apenas por ocupar o mais alto cargo do Governo, mas também pelo seu histórico enquanto presidente da Câmara Municipal da Praia e pelos resultados conseguidos pela sua gestão no sector de saneamento.  Vale lembrar que, ao assumir a CMP em 2008, herdou uma cidade mergulhada no abandono, com graves problemas de saneamento e uma recolha de lixo desorganizada e uma autoestima coletiva profundamente abalada.

Em pouco tempo, liderou um processo revolucionário  que permitiu testemunhar uma transformação notável: uma estratégia eficaz de gestão de resíduos, requalificação urbana e valorização do espaço público devolveu à cidade autoestima e dignidade. A Praia tornou-se, à época, referência nacional em limpeza e organização.

O retrocesso é visível 

Infelizmente, essa realidade pertence hoje ao passado. A capital enfrenta uma regressão gritante. A cidade da Praia vive hoje um cenário caótico no que toca ao saneamento. O lixo acumulado invade os bairros e ameaça a saúde pública. Os praienses, literalmente, quase que são engolidos pelo lixo.

A atual gestão camarária parece querer normalizar o inaceitável: viver no lixo e com o lixo, como se fosse uma condição natural da vida urbana. Não é. E não pode ser.

A meta deve ser uma cidade limpa, digna e aprazível. Não apenas para os cabo-verdianos, mas também para os estrangeiros que escolheram Cabo Verde para viver e para os turistas que o visitam . Para todos eles, a perceção da imagem do país começa inevitavelmente pelo estado das suas ruas.

Sem saúde pública não há desenvolvimento 

O combate ao paludismo, às doenças transmitidas por mosquitos e à degradação urbana começa com decisões políticas firmes, visão estratégica e liderança com sentido de missão. Não há saúde pública sem saneamento. Não há turismo sustentável sem cidades limpas. E não há desenvolvimento possível com uma capital atolada em lixo.

É tempo de, sem politiquices, os cabo-verdianos exigirem mais, muito mais, da liderança em quem confiaram a gestão da cidade da Praia.

Porque quem não entende que a saúde pública não é um luxo, mas sim uma prioridade nacional, simplesmente não está à altura de liderar coisíssima nenhuma.