“Midjor lugar pa bu sta ê na bu kaza (na família), mésmu ki bu txupa sal, bu suporta sedi.” Palavras sábias dos nossos anciãos, que carregam uma profundidade que resiste ao tempo. A casa, a família, é o lugar onde pertencemos, onde aprendemos a amar, a resistir e a crescer. No entanto, vivemos tempos em que este valor essencial parece estar a esmorecer, trocado por uma promessa de liberdade que, por vezes, mais isola do que liberta.
Vivemos um fenómeno cada vez mais visível: a aversão à constituição de um núcleo familiar. Falo do casamento, da formação de um lar, da entrega mútua. A geração atual tem sido fortemente influenciada por uma cultura de autonomia individualista, que valoriza a liberdade pessoal acima do compromisso e da partilha. Frequentemente defende que estar só é melhor, mais seguro, mais livre. Como se formar família fosse uma armadilha emocional ou um fardo demasiado pesado. Contrasta com a ânsia das gerações passadas que, ainda na juventude, buscavam com esperança constituir família e deixar descendência.
Hoje, deparamo-nos com homens e mulheres, muitas vezes com mais de 30 anos, ainda a viver na casa onde nasceram, sem vontade ou condições emocionais para sair, construir e assumir um novo caminho. A autonomia, a responsabilidade, os desejos de continuidade da linhagem familiar parecem ter sido colocados em segundo plano. Casamentos diminuem, divórcios aumentam. Relações desfeitas por egoísmo, falta de empatia, incapacidade de persistir e de se colocar no lugar do outro.
E que legado deixaremos, se a base da sociedade, a família, está em crise? Se a geração que deveria estar a construir o amanhã prefere entregar-se aos prazeres efémeros do presente? Se o amor que gera vidas, que alimenta a alma e constrói sentido, está a ser substituído por relações líquidas e descartáveis?
É urgente inverter esta tendência. Esta reflexão não é apenas um apelo moral, é um grito de alerta social. As instituições precisam unir esforços: o Estado, como promotor de políticas públicas; as igrejas, como guardiãs de valores e sentido; e a sociedade civil, como voz ativa na defesa da família. Não basta construir casas ou distribuir apoios financeiros. É preciso formar, educar, cultivar nos jovens o desejo de constituir uma família, de cuidar, de partilhar a vida com outro ser humano.
Infelizmente, o que temos assistido é uma aposta crescente em eventos que alimentam a promiscuidade, o consumo de álcool e de drogas, tudo em nome do entretenimento. Milhares de contos gastos em festivais que pouco ou nada acrescentam à saúde emocional e relacional dos nossos jovens. Há uma clara ausência de intenção educativa e formativa.
O foco parece ser mais em distrair do que em cuidar.
E as igrejas? Algumas, infelizmente, têm estado mais preocupadas com números do que com pessoas, mais focadas em crescer institucionalmente do que em transformar vidas, com a mensagem do Evangelho. Jesus não veio por estatísticas, mas por almas. É tempo de regressar ao essencial, de trabalhar a partir do coração humano, de ser voz profética e atuante na sociedade.
Apelo à Presidência da República, como guardiã da Constituição que defende a família; ao Governo, para que coloque a família no centro das políticas públicas; e às igrejas, para que sejam, de novo, lugares de encontro, cura e edificação. Não podemos continuar cada um no seu “kutelo”, fechados em agendas pessoais. É tempo de arrepiar caminho, construir pontes e preservar o que levou séculos a ser edificado.
A família tradicional, que carregou a cultura e os valores de geração em geração, está em risco. E, com ela, a nossa própria identidade como povo. Urge agir. Resta-me descansar em Deus, trabalhar mesmo que no anonimato e sonhar, com esperança, ver o meu sonho a caminhar entre os homens. Esse dia virá, quando as famílias voltarem a florescer, os divórcios forem exceção e não regra, e o amor voltar a ser fundamento, e não apenas um ideal distante.
“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.” Salmo 127:1


