[1] Muita gente estava à espera que Francisco Carvalho renunciasse ao cargo de Presidente da Câmara. Como ele não renunciou e optou apenas pela suspensão, muitos continuam a acreditar que o fez com o objetivo de regressar à presidência da Câmara da Praia, caso perca as eleições de maio.
[2] Essa lógica não está totalmente errada. De facto, pode tratar-se de um movimento bem calculado — mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. É um raciocínio simples, que não exige grande esforço mental. Algo tão evidente que qualquer pessoa com algum discernimento consegue perceber.
[3] Mas há um detalhe — porque há sempre um detalhe — que muitos analistas de ocasião parecem convenientemente ignorar: Francisco Carvalho não joga apenas para ganhar eleições; joga também para não perder a liberdade. Porque, sejamos claros, perder eleições pode ser apenas o início de um problema maior. Neste caso, sem a cadeira da Câmara, o cenário pode muito bem deixar de ser político para passar a ser judicial.
[4] Ir para o Parlamento como deputado é, naturalmente, uma saída institucional, mas não compensa do ponto de vista do poder político e financeiro, deixando Francisco Carvalho vulnerável dentro do seu próprio partido. Sem o robusto orçamento municipal da Praia — que ronda os 30 milhões de euros anuais — o salário de deputado não sustenta redes de influência, nem garante lealdades duradouras; e, sem isso, os entusiasmos rapidamente se dissipam.
[5] O cálculo, no fundo, é simples: sem o orçamento municipal e sem o poder que daí advém, Francisco Carvalho tornar-se-ia um ator politicamente fragilizado. Sem o suporte efetivo do PAICV e sem a capacidade financeira associada à Câmara Municipal, ele sabe que o risco de enfrentar consequências judiciais aumenta significativamente.
[6] Por isso, é compreensível que tenha optado pela suspensão do mandato. Desta vez, não se trata de um impulso, mas de uma decisão estratégica. É um cálculo ponderado e necessário para evitar ser politicamente “devorado” dentro do próprio partido.
[7] Francisco Carvalho sabe que há setores do PAICV à espera desse desfecho, assim como há também alguns magistrados que poderão querer fazer dele um exemplo. E, para esses que defendem um Cabo Verde melhor, torna-se cada vez mais evidente que a população começa a perceber o jogo — e a questionar a persistente sensação de impunidade em torno de certas figuras políticas.


